Rosa Virgínia Mattos e Silva é um importante nome da linguística histórica brasileira. Possui doutorado pela USP, pós-doutorado pela UFJR e é professora de língua portuguesa na Universidade Federal da Bahia. O livro aqui resenhado reúne alguns de seus artigos, publicados anteriormente em revistas, e que muitas vezes foram lidos e debatidos em congressos e simpósios da língua portuguesa. Esses artigos, transformados em dez capítulos, afirmam que deve ser dada ao falante a possibilidade de conhecer e aplicar as variadas formas de uso da língua.
Muitos acreditam não "dominar a língua", principalmente os universitários e os profissionais de letras. O que não dominam, na realidade, é a norma idealizada, a norma imposta, e, muitas vezes, não estão em condições de se expressarem sobre assuntos que não conhecem, através dessa norma.
Os profissionais mais conscientes sobre os problemas sociolinguísticos buscam trabalhar a partir da realidade diversificada, sem estigmatizar a variação dialetal, valorizando-a, inclusive, e desenvolvendo soluções.
O desenvolvimento do ensino da língua portuguesa, segundo a sua tradição, é bastante criticada e discutida. A escola exclui traços de diferenças dialetais. Mattos e Silva incentiva uma pedagogia voltada para o todo da língua e não para algumas de suas formas, assim o indivíduo terá consciência de que sabe utilizar a língua que fala todos os dias e poderá aprender mais coisas sobre ela.
No terceiro e quarto capítulo do livro, a autora reflete para a questão do ensino do português brasileiro aos povos indígenas. Há ainda a necessidade de uma política geral da educação brasileira que seja realmente eficiente, mas ela conclui que a luta pela preservação das línguas indígenas e sobrevivência das sociedades em seus territórios devem ser prioridades. Somente em seguida deve ser transmitida a língua portuguesa via escola, na medida das solicitações.
Nos três capítulos seguintes são discutidos assuntos sobre o ensino da gramática, de que forma deve ser corrigido o português dos alunos e a realidade da alfabetização no Brasil.
Uma vez que a escola é um instrumento para socialização do individuo, e a escrita e leitura são essenciais nas formas de comunicação para o processo de socialização, alguma “gramática” deverá ser ensinada no momento em que se considerar necessário regular a fala e escrita do aluno aos padrões de uso. Nas primeiras séries escolares devem ser trabalhados textos escritos diferenciados, com diferentes modos de falar e observar as possibilidades de usos linguísticos.
E quando se trata de correção, a autora acredita que se deve trabalhar com a variação da sintaxe, definir o que será o uso linguístico socialmente aceitável, para que os alunos não fracassem em algum curso de sua futura vida profissional.
Os dois últimos capítulos abordam sobre a política para o ensino da língua portuguesa no Brasil. É necessário reconhecer o caráter multilíngue do país, combater todos os preconceitos linguísticos, estimular e reformular a crítica dos gramáticos e dicionários e definir os direitos linguísticos do cidadão.
Para finalizar, o trabalho de Rosa V. Mattos e Silva produz reflexões e possíveis soluções, quanto aos problemas no ensino da língua portuguesa. Devem ser promovidos novos conceitos de ensino e inovações dentro da sociolinguística a fim de abolir a falsa ideia de que as pessoas não sabem utilizar a própria língua. A valorização das variantes dialetais deve ser difundida e aplicada dentro da realidade escolar.