"Deus me livre tratar de qual seja a verdade da Verdade, assunto que você me propõe na sua carta. Não será apenas pra nós dois, creio que esse é o tropeço maior, a grande pedra no meio do caminho, de todos os intelectuais sinceros. A verdade do intelectual, a "minha" verdade, tem porisso um caracter bem estragoso, é fenômeno de pura contemplatividade, é inútil! Haveria três espécies de verdades... A Verdade de Deus, ou da Transcendência, ou que nome tenha e eu chamo Deus. A verdade preconcebida, socializadora, defensora, a verdade útil e transitória de todos os pragmatismos do homem coletivo (o homem comum). E a verdade incontestavel, achada, experimentada e individual do intelectual. Pouco importa essas três verdades possam às vezes coincidir todas três. Nem me interessa a dúbia verdade científica que vive mudando de pouso, ora pretensiosa querendo atingir a Verdade de Deus, ora socializada e convertida em Bem."
Querida Henriqueta - Cartas de Mário de Andrade a Henriqueta Lisboa
Mário de Andrade
José Olympio
1991
212 páginas
7h 4m
ISBN-10: 850300352X
Português Brasileiro
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