Neste livro há um clima de peregrinação, onde avulta a corajosa solidão de Losekann, se virando para descobrir fatos e crimes como o assassinato de Chico Mendes, de Edmundo Pinto. Nesta viagem sempre se ouve o sinistro ruído de motosserras misturado com caricaturas incríveis como o índio Roberto Carlos, rico vendedor de mogno, cercado de haréns e asseclas. Nesta viagem vemos os peixes-boi sendo exterminados em sua doçura, vemos o dinheiro falsificado, os troncos de árvores centenárias caindo, a tragédia dos garimpos, vemos como a miséria destrói a ecologia, vemos a cocaína rolando na floresta com cheiro de éter no ar, vemos na viagem de Losekann a salvação e a morte das tartarugas, subimos nas infinitas alturas do monte Roraima, descemos em pistas clandestinas, entramos em prostíbulos, em cemitérios, em pântanos e desertos.
Mas, sobretudo, o que vemos por trás dos fatos narrados é o magma das notícias, o grande erro nacional em volta dos fatos. Vemos um país inteiro sem rumo, onde a vida cotidiana e as leis são ditadas pelo acaso ou pelo improviso de poderes locais. A grande notícia que Losekann descobre é o endêmico abandono nacional. O trabalho deste jovem jornalista é exemplar. O livro O ronco da pororoca, de Marcos Losekann, também é notícia.
ARNALDO JABOR
Trecho da Apresentação do livro