O almoço nu pode ser considerado a magnus opus de William S. Burroughs e a representação máxima da contracultura da geração Beat. Nessa obra escrita em 1959 que causou grande furor na época e não é para menos, pois ainda hoje ela causa espanto, repulsa e estranhamento nos puritanos e conservadores de plantão (que não são poucos dada a onda de conservadorismo que temos vivenciado). O texto explora abertamente o consumo de drogas dos mais diversos tipos e suas consequências, homoerotismo, linguagem explícita com muitos termos chulos, crítica social e política. Tudo isso misturado numa trama rocambolesca e surreal, com empresas e corporações, detetives e traficantes drogados não necessariamente nessa ordem. Situações para lá de bizarras como o clássico trecho em que Bill Lee conta sobre "um cara que ensinou seu c* a falar que foi adaptado de forma impecável por David Cronenberg em Mistérios e Paixões (recomendo fortemente esse filme, ele conseguiu o impossível, adaptar uma obra tão aberta e bizarra e um filme mais ou menos linear e coerente na medida do possível.
Além da temática polêmica já citada, a estrutura do livro é dividida em capítulos ou vinhetas como sugere a sinopse. Capítulos esses que podem até ser lidos de forma aleatória dada a descontinuidade do enredo. Não são contos por que nao se encaixam nessa denominação. Dentre essas vinhetas/capítulos, os que mais me impressionaram estão:
Benway
A burocracia kafkiana embebida em heroína. A homossexualidade como fator determinate do sofrimento do autor, a pressão social a que ele estava submetido e sua vida marginal regrada a drogas são sintetizadas nesse trecho que remete tanto a Kafka quanto ao totalitarismo de Orwell.
A festa anual de A.J:
Um texto altamente lascivo, chocante e escatológico... vai em uma crescente de teor erótico leve e até prazeroso de ler e imaginar culminando em bizarrices e narrativa surreal que confunde e enoja ao mesmo tempo.
Corporação Islã e os partidos da Interzona:
Uma das melhores partes do livro, aqui temos:
Liquefacionários, divisionistas, emissores e fáticos. São os partidos que compõem a Corporação Islã, uma entidade que controla tudo e nada ao mesmo tempo e sua onipresença oprime, com seu caráter burocrático e maligno. Esses partidos lutam entre si, o que envolvem réplicas de si mesmo disfarçadas, seres insetoformes, corruptos, muita orgia e consumo de drogas junk. Entendeu algo? É... eu também não, mas é uma viagem incrível!
Definitivamente não é uma leitura indicada para os mais sensíveis, conservadores e reacionários... ou melhor talvez seja para esses indivíduos mesmo. O intuito da geração Beat que descortinou a hipocrisia da sociedade norte americana, deu origem ao movimento hippie dos anos 60 e abriu as portas para toda a criatividade e cultura dos anos posteriores.