A Edição Atualizada de "O Guesa", poema épico em doze cantos e um epílogo, de Sousândrade, foi realizada pela pesquisadora Luiza Lobo, com revisão técnica de Jomar Moraes. Apresenta, pela primeira vez, o texto estabelecido em português atual e de acordo com a reforma ortográfica de 2009. As quatro edições anteriores do poema completo eram fac-similares. Sem dúvida o poema se tornará muito mais acessível, conforme aponta o acadêmico Antônio Carlos Secchin na quarta capa, quando afirma que “é dos livros mais citados e menos lidos do Romantismo brasileiro”. Após cinco anos de trabalhos, Luiza Lobo apresenta um amplo leque de notas e referências, introdução e glossário contendo neologismos e palavras raras, inclusive estrangeiras. Estas não se limitam ao inglês, ao francês e ao espanhol, mas se estendem ao tupi, quíchua, holandês e ao grego. Também foi restabelecida a separação entre as estrofes, que tinha sido abolida na edição de Londres do Guesa, que serviu de base a este trabalho de amplo fôlego.
O Guesa -
Sousândrade
Edições (2)
Ver maisA personagem Guesa: um mito multifacetado
No âmbito da escola romântica brasileira, segundo uma classificação cronológica, Joaquim de Sousândrade pertence à segunda geração de poetas românticos. Sua produção artística estava inserida em um contexto no qual o subjetivismo, a moda de Musset e Byron, ganhava força no discurso literário. Sendo assim, o épico O Guesa está carregado dessa áurea subjetiva, bem como de inovações estéticas tanto no que diz respeito aos recursos estilísticos, quanto ao tratamento dado às temáticas próprias do romantismo, refletindo-se no tratamento que o narrador dá à cena a qual está se referindo. Essa postura mais aproximada do narrador do épico romântico coaduna-se com a do narrador do romance. Sousândrade partiu de uma lenda dos índios muíscas da Colômbia para compor o seu projeto épico-romântico. Para tanto, recorreu à pesquisa antropológica do alemão Humboldt, em seu livro Vues de Cordillères (1810-13) e a seção “Colombine” da enciclopédia L’Univers (1837), redigida por César Famin. O Guesa, cujo significado de seu nome é “Sem Lar”, ou “Errante”. Trata-se de uma criança raptada dos pais, que após a peregrinação na estrada do Suna, era sacrificado aos quinze anos de idade, em tributo ao deus sol conhecido como Bochica. O ritual de sacrifício era realizado pelos sacerdotes – os xeques, onde em uma praça circular era a vítima a ser sacrificada atada a colunas circulares, sendo atingido por flechas, seu sangue era recolhido em vasos sagrados e seu coração oferecido a Bochica, abrindo-se, assim, um novo ciclo de peregrinação e sacrifício. Para entendermos a complexidade da personagem construída por Sousândrade, é necessário entendermos a proposta indígena trazida por ele, o que o diferencia do modelo de índio consagrado por José de Alencar. O Guesa se destaca como herói indígena, diferenciando-se do índio de Alencar, porque ultrapassa as barreiras da representação do mito nacional, alcançando um patamar mais elevado, representando um índio transcontinental, transformando-se em um herói multifacetado, com uma identidade mais plural. Ele não figura apenas um índio muísca colombiano, mas também inca peruano e brasileiro. A personagem nascida nos Andes “Eu nasci no deserto,/Sob o sol do equador:” (Canto II, p. 47), o Guesa de Sousândrade também se apresenta na roupagem de um nobre inca “Traja apenas sandália e manto (ao jeito Do Inca), mas de oiro puro e pedras belas”. (Canto V p. 117). Além disso, o Guesa cresceu na Fazenda Vitória, no Maranhão, “Jerusalem das selvas, ó Victória,/Onde ao collo do amor crescera o Guesa” (Canto V, p. 133). Dessa maneira, a personagem apresenta um hibridismo de nacionalidade, sem com isso perder a essência heroica. Sua trajetória segue uma linha frenética de tempo e espaço, percorrendo a América fugindo dos xeques. Mas antes de ser um fugitivo, o Guesa é um viajante que erra pelos desertos, como é chamado por Dudaleda, a mulata brasileira, “Viajor sitibundo dos desertos” (p. 110), ou de peregrino, como ele mesmo se assume “–Romeiro solitário dos espaços (p. 134). Distanciando-se do mito e aproximando-se do humano, é que conseguimos enxergar melhor a diferença entre o herói indígena idealizado por José de Alencar e o Guesa. O herói de Sousândrade carrega em si o peso da consciência crítica e a constatação de um mundo hostil para ele, separando-se do colonizador e se assumindo como parte oprimida. Ao contrário de Peri que se transporta para o mundo branco naturalmente, sem questionamentos. Cabe esclarecer que não estamos questionando o heroísmo de Peri, mas sim a postura assumida por ele ante o colonizador. Além disso, este se diferencia do Guesa por ser um índio idealizado, distante da realidade histórica dos indígenas, enquanto o Guesa é, como afirma Luíza Lobo, uma opção realista para a criação do herói. Assim se diferencia do índio de Alencar que se sacrifica ao branco sendo-lhe servil, em um ato que para é sublime. Enquanto o Guesa foge do sacrifício e da submissão gratuita. Nesse sentido, se por um lado o Guesa representa um modelo indígena mais universal, representando um índio coletivo, ele também se apresenta como indivíduo com questões de foro particular, que lhe conferem uma área extremamente voltada para o eu, carregada de tristeza e solidão, típico do caráter do herói romântico “Deitado a sós na solidão das flores,/Eu contemplo a harmonia das estrelas:” (p. 138). O Guesa é um índio que reconhece a si como parte de uma história marcada por opressão e morte, e sua figura reflete uma áurea superior “E nobremente galopava o Guesa” (p. 122). Ele se impõe como guerreiro, ainda que ultrajado pela perseguição dos xeques. Contudo, não podemos deixar de lado as contradições que a personagem apresenta. Suas contradições evidenciam-se na sua identidade, já que é uma vítima mitológica peruana, que cresceu em uma fazenda no Maranhão, que se compara a um poeta. Além disso, é um índio realista e humanizado, que se posiciona diante do drama coletivo, por outro lado também é um guerreiro que se entrega ao vazio da solidão e da melancolia, se abstendo da luta “Elles descansam; eu à dor me entrego” (p. 141). O Guesa não pode ser encarado como um personagem simples, pelo que podemos verificar, temos um indivíduo complexo e multifacetado, que não se resume em um aspecto acabado. Apesar de sua figura representar um peregrino errante, um índio lendário, sem lar, ele é de um lugar, a Fazenda Victória, que representa um lugar que lhe é familiar, conferindo-lhe um sentimento de pertencimento, como se este fosse o verdadeiro lar do Guesa“Oh! paz e amor ao geniio bom dos lares,/Quea luz ofende, que importuna accende/Pródigo filho, a dor d’estes logares” (p. 138).
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