Antes deste Vida de Escritor (2006), de Gay Talese (nascido em 1932) eu só havia lido, há mais de uma década, A Mulher do Próximo (Companhia das Letras, 2002), que tratava da permissividade americana nas décadas de 1960 e 1970 nas questões sexuais. Lia-se com muito interesse, como se estivéssemos lendo um romance. O mesmo acontece em Vida de escritor, só que aqui temos várias histórias (ou temas) e personagens curiosos, tudo interligado pela própria história de vida e carreira do autor, um dos mais respeitados jornalistas americanos.
O posfácio é de Mario Sergio Conti, Sujeições de um repórter, e nele Talese é chamado de repórter-escritor; Conti diz que a obra é labiríntica, autoquestionadora e fragmentada. O texto inicial, que trata de futebol e conta a história de uma jogadora chinesa que perdeu um pênalti na copa mundial feminina de 1999 (EUA foram os campeões) só vai terminar nos capítulos finais do livro, uma verdadeira odisseia para o leitor. E o início dessa história pode ter feito algumas pessoas abandonarem o livro, porque não foi nada fácil atravessar os três primeiros capítulos da obra.
Lá pelo quarto capítulo, quando Talese começa a lembrar da década de 1940, quando seu pai era alfaiate e ele era um estudante, as coisas melhoram muito e daí em diante, mesmo que tenhamos histórias fragmentadas, fica fácil acompanhar tudo. Mas a coisa vai ficar um pouco enfadonha novamente quando Talese decide contar sobre sua paixão por comida e restaurantes. Virão centenas de páginas sobre seu hábito de frequentá-los e especialmente sobre um único endereço em Nova York que chegou a ter cerca de dez restaurantes (em épocas diversas) cujas portas se mantinham abertas por poucos meses e depois fechavam por falta de clientes e prejuízos diversos.
Junto com os restaurantes vêm as histórias de alguns personagens, seus donos, como a famosa Elaine Kaufmann, dona do Elaines, famoso restaurante frequentado por intelectuais, artistas, escritores, celebridades, que tinha como maître um genovês Nicola Spagnolo. Mais tarde, ele mesmo tornou-se dono de outros restaurantes que não deram tão certo quanto o de Elaine, sua concorrente então. Elaine e Spagnolo vão e vêm pelas quase quinhentas páginas do livro, assim como outros personagens destacados por Talese.
Daí que Conti escreveu que Vida de escritor era labiríntico e fragmentado, além de Talese fazer digressões grande parte do tempo. E quando a ele ser autoquestionador muitas vezes, é porque não tinha tanta certeza assim se devia ou não prosseguir com um relato, arquivava páginas e anotações sobre diversos assuntos ou sobre aquele que escrevia no momento, sem ter muita certeza de que poderia publicar tudo um dia, numa revista de prestígio (ele trabalhou para algumas das mais importantes do país) ou mesmo em formato de livro. Que foi o que acabou ocorrendo com Vida de Escritor. Que virou um volume com algumas histórias, longas histórias, infindáveis, na verdade.
Duas reportagens se destacam: suas coberturas sobre a cidade racista de Selma, no sul dos EUA; Talese conhecia um tanto a região porque estudara no Alabama, mergulhado em conflitos raciais. E aí temos Martin Luther King, o Domingo Sangrento em Selma, a dura realidade dos negros norte-americanos e sua luta em diversos campos, também para por fim aos processos eleitorais vigentes, altamente discriminatórios para eles. O outro relato que atrai bastante a atenção do leitor é sobre o casal Lorena e John Wayne Bobbitt, que teve o pênis cortado em cerca de 2/3 pela mulher.
O caso Bobbitt, apesar de sua seriedade, pelo menos não é tão pesado quanto as histórias passadas na racista Selma, ou as um tanto enfadonhas histórias dos restaurantes e seus restauranteurs. E ainda que o leitor possa sentir certo arrepio em certa parte do corpo quando lê o relato de Talese, pode até encontrar um pouco de ironia e humor em tudo aquilo. Talvez essa e as demais histórias de Vida de Escritor encontrem melhor eco entre profissionais da imprensa, estudantes de jornalismo ou comunicações etc.
Como escreveu Conti, a estrutura de Vida de Escritor não tem a calma ou a solenidade de uma obra clássica. [...] é moderno, no sentido em que demonstra que a sua forma não tem nada de natural ou automático. Ela é uma construção arbitrária. É o produto do trabalho de um sujeito. Um sujeito que se sujeita aos outros, que define a sua identidade na escuta e no confronto com os outros. Um repórter. Enfim, é isso mesmo.
Lido entre 01 e 08 de novembro de 2024.