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    Vida de Escritor (Jornalismo Literário) - Um Mestre do Jornalismo Literário Escreve Sobre seu Ofício

    Gay Talese

    Companhia das Letras
    2009
    509 páginas
    16h 58m
    ISBN-13: 9788535914269
    Português Brasileiro
    3.9
    110 avaliações
    Leram196Lendo33Querem403Relendo1Abandonos21Resenhas11
    Favoritos15Desejados403Avaliaram110

    Vida de escritor não é uma autobiografia convencional. É um livro sobre o ofício da escrita, e os reveses que acometem aos que por ele se aventuram. Entre as agruras para encontrar uma boa história é que Talese nos deixa divisar sua vida e, especialmente, sua carreira. Os dramas começam no jornalzinho da faculdade (de baixa reputação) que cursou no Alabama. Prosseguem nos dez anos que trabalhou como repórter do New York Times, no qual entregava suas matérias na undécima hora, e sempre reclamava das alterações e cortes feitos por redatores. E se tornam mais complexos nas revistas com as quais passou a colaborar. Uma delas foi a prestigiadíssima New Yorker. Talese conta como passou meses apurando a história de Lorena Bobbit, que, num surto de fúria, cortou com uma faca de cozinha o pênis do marido. Ele se esfalfou para reconstituir a noite da agressão e tentou entrevistar todos os envolvidos no episódio. Enfurnou-se então num quarto e escreveu uma longuíssima reportagem, enviou-a à revista e, já de manhã, extenuado, foi dormir. Acordou à tarde com um fax na porta: a diretora da revista recusava a reportagem, e sugeria que Talese fizesse um pequeno livro sobre o crime. O escritor bem que tentou, mas tal livro não passou de um arremedo. Vida de escritor começa e termina com uma história de derrota ainda mais doída. Talese passou anos viajando ao redor do mundo atrás de Liu Ying, uma atacante da seleção chinesa de futebol. Na final da copa do mundo de 1999, disputada entre os Estados Unidos e a China, ela perdeu o pênalti decisivo, que daria a vitória a seu país. O drama da jovem espelha a frustração de Talese, que não consegue fazer nem sequer uma reportagem sobre Liu Ying. Septuagenário, Gay Talese poderia ter feito um livro de memórias complacente. É sem qualquer condescendência consigo mesmo - mas também sem se comprazer no sofrimento -, no entanto, que ele demonstra como o fracasso é inerente à profissão. Ao construir Vida de escritor em torno de personagens anônimos ou menores, o autor na prática se solidariza com eles. E dá uma lição que só a experiência e a sabedoria propiciam: mesmo na autobiografia de um jornalista, o que importa são os outros.

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    Resenhas (11)Ver mais
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    jota 1109/11/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    MUITO BOM: ainda que as histórias narradas por Talese pareçam infindáveis, e algumas vezes até enfadonhas, não há como negar que temos em mãos a obra de um dos maiores escritores (ou repórter-escritor) de nosso tempo

    Antes deste Vida de Escritor (2006), de Gay Talese (nascido em 1932) eu só havia lido, há mais de uma década, A Mulher do Próximo (Companhia das Letras, 2002), que tratava da permissividade americana nas décadas de 1960 e 1970 nas questões sexuais. Lia-se com muito interesse, como se estivéssemos lendo um romance. O mesmo acontece em Vida de escritor, só que aqui temos várias histórias (ou temas) e personagens curiosos, tudo interligado pela própria história de vida e carreira do autor, um dos mais respeitados jornalistas americanos. O posfácio é de Mario Sergio Conti, Sujeições de um repórter, e nele Talese é chamado de repórter-escritor; Conti diz que a obra é labiríntica, autoquestionadora e fragmentada. O texto inicial, que trata de futebol e conta a história de uma jogadora chinesa que perdeu um pênalti na copa mundial feminina de 1999 (EUA foram os campeões) só vai terminar nos capítulos finais do livro, uma verdadeira odisseia para o leitor. E o início dessa história pode ter feito algumas pessoas abandonarem o livro, porque não foi nada fácil atravessar os três primeiros capítulos da obra. Lá pelo quarto capítulo, quando Talese começa a lembrar da década de 1940, quando seu pai era alfaiate e ele era um estudante, as coisas melhoram muito e daí em diante, mesmo que tenhamos histórias fragmentadas, fica fácil acompanhar tudo. Mas a coisa vai ficar um pouco enfadonha novamente quando Talese decide contar sobre sua paixão por comida e restaurantes. Virão centenas de páginas sobre seu hábito de frequentá-los e especialmente sobre um único endereço em Nova York que chegou a ter cerca de dez restaurantes (em épocas diversas) cujas portas se mantinham abertas por poucos meses e depois fechavam por falta de clientes e prejuízos diversos. Junto com os restaurantes vêm as histórias de alguns personagens, seus donos, como a famosa Elaine Kaufmann, dona do Elaine’s, famoso restaurante frequentado por intelectuais, artistas, escritores, celebridades, que tinha como maître um genovês Nicola Spagnolo. Mais tarde, ele mesmo tornou-se dono de outros restaurantes que não deram tão certo quanto o de Elaine, sua concorrente então. Elaine e Spagnolo vão e vêm pelas quase quinhentas páginas do livro, assim como outros personagens destacados por Talese. Daí que Conti escreveu que Vida de escritor era labiríntico e fragmentado, além de Talese fazer digressões grande parte do tempo. E quando a ele ser autoquestionador muitas vezes, é porque não tinha tanta certeza assim se devia ou não prosseguir com um relato, arquivava páginas e anotações sobre diversos assuntos ou sobre aquele que escrevia no momento, sem ter muita certeza de que poderia publicar tudo um dia, numa revista de prestígio (ele trabalhou para algumas das mais importantes do país) ou mesmo em formato de livro. Que foi o que acabou ocorrendo com Vida de Escritor. Que virou um volume com algumas histórias, longas histórias, infindáveis, na verdade. Duas reportagens se destacam: suas coberturas sobre a cidade racista de Selma, no sul dos EUA; Talese conhecia um tanto a região porque estudara no Alabama, mergulhado em conflitos raciais. E aí temos Martin Luther King, o “Domingo Sangrento” em Selma, a dura realidade dos negros norte-americanos e sua luta em diversos campos, também para por fim aos processos eleitorais vigentes, altamente discriminatórios para eles. O outro relato que atrai bastante a atenção do leitor é sobre o casal Lorena e John Wayne Bobbitt, que teve o pênis cortado em cerca de 2/3 pela mulher. O caso Bobbitt, apesar de sua seriedade, pelo menos não é tão pesado quanto as histórias passadas na racista Selma, ou as um tanto enfadonhas histórias dos restaurantes e seus restauranteurs. E ainda que o leitor possa sentir certo arrepio em certa parte do corpo quando lê o relato de Talese, pode até encontrar um pouco de ironia e humor em tudo aquilo. Talvez essa e as demais histórias de Vida de Escritor encontrem melhor eco entre profissionais da imprensa, estudantes de jornalismo ou comunicações etc. Como escreveu Conti, “a estrutura de Vida de Escritor não tem a calma ou a solenidade de uma obra clássica. [...] — é moderno, no sentido em que demonstra que a sua forma não tem nada de natural ou automático. Ela é uma construção arbitrária. É o produto do trabalho de um sujeito. Um sujeito que se sujeita aos outros, que define a sua identidade na escuta e no confronto com os outros. Um repórter.” Enfim, é isso mesmo. Lido entre 01 e 08 de novembro de 2024.

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    Avaliações

    3.9 / 110
    • 5 estrelas29%
    • 4 estrelas40%
    • 3 estrelas28%
    • 2 estrelas2%
    • 1 estrelas1%
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    Gay Talese

    Talese é um dos criadores do movimento que foi batizado de Novo Jornalismo, criado na década de 60, que incorporava no jornalismo características de literatura (descrição de cenas, diálogos e ponto de vista dos personagens). Escreveu perfis que entraram para a história do jornalismo, como os do cantor Frank Sinatra, o jogador de baseball Joe DiMaggio e os boxeadores Floyd Patterson e Joe Louis.

    15 Livros
    69 Seguidores
    Nova Jersey, Estados Unidos

    Gay Talese