A Guerra da Tarifa, de Leo Vinicius, conta a história das manifestações contra o aumento do preço dos transportes públicos em Florianópolis, e da reivindicação pelo passe livre para os estudantes. O sucesso do movimento, que foi relatado no livro, inspira hoje outras movimentações semelhantes em todo o país. Seu caráter libertário mostra a toda a sociedade que existem práticas políticas muito mais interessantes que o jogo corrupto e burocrático exercido pelos partidos políticos. A publicação desse texto busca, entre outras coisas, dar um novo fôlego aos movimentos de ação direta, e inspirar as práticas libertárias de reivindicação, para que se espalhem ainda mais pelo Brasil e pelo mundo!
A Guerra da Tarifa -
Leo Vinicius
Quando o circo pegou fogo
Onde estávamos em 2004 e 2005? nas ruas e nas escolas fazendo o "trabalho de base", falando sobre o projeto do Passe Livre, colando cartaz lambe-lambe, vendendo camisas do movimento, distribuindo panfletos, organizando shows de rock, participando de reuniões, nos acorrentando, ocupando e hospedando a câmara dos vereadores e acampando tanto num palco feito concha acústica dentro duma universidade quanto em frente ao terminal central num frio dos diabos enquanto desabava do céu uma torrente de chuva, que naufragava nossas barracas como se fossem canoas furadas. Leo Vinicius tem razão: era de fato um movimento libertário, construído por secundaristas, porém, orquestrado por membros mais velhos que tinham uma bagagem adquirida no meio político "tradicional". em 2004 eu realmente acreditava que participar do Passe Livre era um pretexto para lutar por causas mais amplas. a base do Passe Livre era formada por uns gatos pingados da JR (Juventude Revolução), um grupo dissidente do PT, sem nenhum tipo de associação com partidos políticos. as manifestações pelo Passe Livre tinham um caráter mais libertário, de ação direta mesmo em meados de 2003-2004 quando eram "puxadas" por estudantes e por anarquistas. o movimento só cresceu devido ao aumento da tarifa em 2004/2005. só a partir desse momento que o povo aderiu as manifestações, que foram incitadas e organizadas pelo núcleo do Passe Livre. a prefeita Ângela Amin foi pega de assalto por uma horda ensandecida, não sabia como coagir as manifestações, pois tudo aquilo era novidade na cidade (Florianópolis/SC). antes disso temos a "novembrada" e antes dela temos a chacina de Floriano Peixoto e antes disso o que ocorreu na ilha em termos de relevância política? só Cruz e Sousa e os indígenas sabem. fechar as principais artérias da ilha era fácil. entretanto, em 2005 o prefeito Hilário Berger, já ciente do "roteiro de protesto", nos obstruiu. eu estava lá na linha de frente tomando spray de pimenta na cara e me esquivando das balas de borracha alastradas pelos dogs do sr. Berger. o Passe Livre só virou um movimento nacional (MPL) em 2005, mesmo com a oscilação do preço da tarifa de ônibus e com a implementação incerta do Passe Livre como projeto de lei. naquele ano houve um racha no MPL entre dois membros da JR, o que acabou enfraquecendo o movimento e dispersando os militantes da linha de frente (rotulados por alguns do núcleo como os "🤬 #$%!& -loucas"). a ruptura se resumia em visões antagônicas: enquanto um achava que era preciso lucrar em nome do movimento para poder militar o outro discordava sem perceber que até mesmo uma revolução precisa ser financiada. os partidos têm plena consciência disso, não? em suma, o que ganhamos com 2004/2005? além de conquistas concretas, creio que o mais importante para a minha geração foi a experiência e o despertar da consciência política. e claro, ver algo inédito na cidade, isto é, o circo pegando fogo. foi divertido.
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