A criação do gênio não é lembrança, mas ressurgência, emergência de um fundo comum, que a criança – ou a infância – anima com sua sensibilidade e que o artista consegue exprimir. Assim, além de se lembrar, de se deixar impulsionar por forças obscuras, o artista – pintando, escrevendo, compondo – é banhado de infância. Criança, ele o é, ou melhor: ele se “torna”. Parece-me que esse tornar-se, esse devir completamente singular – correspondendo a uma disposição própria ao artista, à sua disposição subjetiva – foi exatamente nomeado e caracterizado por Gilles Deleuze e Félix Guattari com a expressão “devir criança”, em que devir reveste a forma, ao mesmo tempo, substantiva de um estado e ativa de um verbo. E eles exprimiram a mesma coisa com a expressão, intimamente ligada à primeira e sua corolária, “bloco de infância”, que não é mais a infância em lembrança, mas em devir, precisamente, na orientação criadora. O bloco é a infância preservada, resistente, emergindo, como o iceberg, do mar profundo, a infância radiante como um cristal – ela própria cristal do tempo e, em bloco, contra qualquer corrosão e ameaça.
Infantis - Charles Fourier e a infância para além das crianças
René Schérer
Autêntica Editora
2009
240 páginas
8h 0m
ISBN-13: 9788575262986
Português Brasileiro
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