Algumas vezes temos que ter cuidado com aquilo que a gente deseja, pois se desejarmos com muita devoção ela pode acontecer. Seguindo este raciocínio comecei a ambicionar a continuação de um livro que havia lido e não me saía da cabeça. O livro em questão é Agridoce da minha querida amiga Simone O. Marques.
Descobri que não estava solitário nesta minha empreitada, muitos sonhavam com aquela gama enorme de personagens - portadores, antagonistas, escravos, tutores, contaminados, anarquistas, mensageiros – todos novamente povoando nossos anseios, externando nossas vontades implícitas. De tanto insistirmos, acabamos presenteados com a continuação, melhor ainda, com o desenvolvimento da saga “Sabores do Sangue”.
O livro Cítrico, segundo da saga, chega às livrarias no início de abril, lançado pela editora Literata (desde já quero tornar pública minha admiração por esta editora, louvando sua iniciativa em lançar autores nacionais de qualidade), mas para minha surpresa e envaidecimento fui um dos escolhidos para lê-lo em primeira mão, antecipadamente.
É como lançar um velho lobo em meio às ovelhas. Fiquei alucinado, convite feito, convite aceito, é claro! O livro é de tirar o fôlego. Logo de cara temos personagens secundários ganhando status numa “leve” sessão de tortura:
"A luz foi diminuída até ficar pouco mais fraca do que uma lâmpada de 60 watts. Nicolas sentia que sua boca estava seca, mas uma gosma escorria pelas laterais de seus lábios e pelo pescoço. Abriu os olhos... Que lugar era aquele? Um consultório de dentista? Pensou sentindo o pânico crescer incontrolavelmente. Sua boca aberta estava presa por algo de metal, que machucava. Um som como de um gargarejar foi a única coisa que conseguiu fazer. A música continuava em seu refrão, mas agora o som estava mais baixo, You're the devil in disguise... oh yes you are... the devil in disguise... Então uma sombra passou pela luz e a figura de seu captor se revelou. Era um homem baixo, com um rosto estreito, cabelo liso cor de palha que caía pela testa, grudado no suor do rosto, a barba estava por fazer, os lábios eram finos e compridos e uma grande cicatriz marcava sua bochecha esquerda.
Nicolas quis gritar, mas seus sons eram sufocados pela gosma que tomava conta de sua boca. O homem o fitou com esbugalhados olhos escuros e sorriu ligeiramente. Ergueu uma peça de metal o suficiente para que Nicolas pudesse vê-la, era semelhante a um alicate..."
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