"Missa do Galo", publicado originalmente em 1893, é um dos contos mais famosos de Machado de Assis. Decidi fazer essa leitura porque estou lendo um livro de contos de Lygia Fagundes Telles, que foi convidada, em 1977, junto com outros autores, para fazer uma releitura desse famoso conto de Machado, trazendo novas nuances dramáticas e atualizando-o ao imprimir um pouco de sua época na narrativa.
No conto de Machado, a história é narrada em primeira pessoa por Nogueira, que relembra um episódio de sua juventude, quando tinha 17 anos e estava hospedado na casa de Menezes, um escrivão, no Rio de Janeiro. O conto se passa na véspera de Natal, enquanto Nogueira espera a hora de ir à Missa do Galo. Durante a noite, ele acaba tendo uma longa conversa com Conceição, a esposa de Menezes, que é descrita como uma mulher mais velha (em torno de 30 anos), com um ar de mistério e melancolia.
O conto é deliberadamente ambíguo e repleto de subentendidos e insinuações. Conceição parece demonstrar certo interesse por Nogueira, mas nada é dito abertamente. Todas as falas e movimentos dela parecem provocativos, mas, ao mesmo tempo, inocentes. Essa pegada machadiana de nos deixar no campo da incerteza me fez questionar várias vezes o que realmente estava acontecendo entre os personagens.
Entretanto, a memória e a percepção do próprio Nogueira parecem limitadas, impedindo-o também de entender totalmente o que aconteceu naquela noite. Essa incerteza de Nogueira acaba sendo compartilhada por mim, que, mesmo após reler o conto duas vezes, não consegui definir muito bem nem encontrar respostas claras para a interação dos dois. Seria apenas um diálogo trivial ou um encontro carregado de significados ocultos? Nunca saberei com certeza. Sendo assim, só me resta imaginar se realmente havia algo mais acontecendo naquela noite de Natal.
Este é um conto que encanta por sua sutileza e pela forma como explora os limites do desejo e da comunicação humana. Recomendo.