Já tinha lido todos os livros de Talese. Como um estudante de jornalismo , não dá pra acreditar no volume, na perícia e nos detalhes que compõem suas obras. Detalhes tão vivos que nos levam a suspeitar, mas sim, são todos reais.
Enfim, tendo lido os outros cinco títulos em português, resolvi deixar-me levar ao último, que nunca foi traduzido ao português. O volume que eu tenho - o da foto ao lado- tem 576 páginas, com uma formatação minimalista. Se fosse na formatação brasileira, passaria fácil das 700. Mesmo que seja dificílimo de ser encontrado por aqui, a leitura vale muito, mas muito a pena.
Principalmente pois, para quem já conhece o modo de trabalho de Gay, a surpresa é ainda maior com as formas usadas pelo autor: o início descreve sua própria infância, em uma primeira pessoa segura e honesta dos fatos. Sem que se note, calmamente, a linguagem muda para uma terceira pessoa onisciente, que narra mais de 200 anos da sua própria família, voltando em cada peculiaridade, história, amores, enfim, tudo relacionado aos Talese.
Mais do que isso, o retrato é fiel ao modo de vida de Maida, uma pequena cidade esquecida pelo mundo no sul da Itália - algo como o interior do Maranhão para nós. A partir de diários, fotos e fatos- principalmente fatos- o que se vê é uma viagem pelos costumes, pelo modo de vida e , principalmente, pela busca dos italianos pelo novo mundo, pelo fim do cenário em que tinham, sem muitas expectativas, em troca de riqueza e estabilidade na América.
O livro é tão sutil que não se sente a quantidade de personagens - não contei, mas devem haver de 100 a 150 deles. Isso demandou dez anos de pesquisa do autor- cinco deles só para conceber a forma como está escrito hoje, nas edições da Random House americana. O livro tem como tema a </i>famiglia</i> Talese, mas é sobre o espírito e a comunidade italiana, representadas ali por ele próprio, o pai Joseph, o tio Antonio, além de outros ilustres como Mario Cuomo, Madonna, Sinatra e Mussolini.
Deve ser por isso que, quando terminei o livro, mesmo sem razão aparente, uma lágrima desceu sorrateira do canto esquerdo. O que eu tinha ali é uma verdadeira obra de arte. E, como todo jornalista que se preze, Talese fez sua obra de arte com aquilo que sabe burilar com mais facilidade: os fatos.