Considero que algumas das melhores e mais produtivas atividades que alguém pode tomar parte são: (i) rever velhos conceitos; (ii) repensar antigos dogmas; (iii) questionar aparentes verdades; (iv) indignar-se frente às próprias convicções, ao usual, ao conhecido e ao aceitável; ou (v) simplesmente perguntar: “porquê”?
Claro que nem sempre essa tarefa é fácil, gratificante ou mesmo exitosa. Se fosse fácil assim encontrar todas as respostas, arrisco dizer que o próprio Sócrates teria esgotado todo o assunto que diz respeito à Filosofia.
Digressões à parte, ler O Símbolo Perdido me fez perceber que havia um Dan Brown diferente daquele autor de O Código Da Vinci que eu estimava conhecer.
Confesso que esse mega sucesso que o gindou do dia para a noite à posição de grande escritor me infundiu alguma desconfiança. Seria ele um oportunista, um escritor de segunda classe beneficiado pela força da mídia e pela polêmica inerente à sua obra?
Dan Brown foi ao mesmo tempo celebrado e severamente criticado e eu fiquei muito tempo com essa impressão. Por fim, quando li o Código Da Vinci lembro de ter gostado bastante do estilo do autor e, notadamente, dos temas abordados.
Dessa vez, iniciei a leitura de O Símbolo Perdido atraído pelo tema central e esperando encontrar muitas referências a outros assuntos interessantes. Nada mais que isso.
A surpresa foi que me vi mais uma vez preso, página a página, ao suspense da narrativa, aos capítulos curtos de Dan Brown, que sempre se interrompem no limiar de alguma revelação importante para o enredo e dão lugar a um outro cenário onde se passa outro fragmento imprescindível para a compreensão da estória sempre intrigante, que, por sua vez, é desvelada com extremo vagar. Pequenas doses de perplexidade, administradas lentamente quase não me deixaram largar o livro até que tudo ficasse esclarecido.
Em dado momento, lá pelo meio do livro, o autor se digna a dar explicações sobre as origens e principalmente acerca da motivação do vilão da estória e se sai muito mal na tarefa. Isso foi péssimo. Apenas corroborou a primeira impressão de que esse é mais um daqueles romances encomendado por um editor sedento de lucros e que por isso, e também pela inépcia do autor, agora eu era obrigado a aceitar uma explicação daquele gênero.
Por algum motivo o referido excerto não estava em harmonia com o resto do livro e, avançando novamente na leitura as peças voltam a se encaixar. A narrativa mais uma vez começa a me absorver e quando que já estava quase esquecendo aquele verdadeiro “furo” sobre a origem e a motivação do vilão (afinal, aquilo não era motivo para alguém fazer o que aquele sujeito estava fazendo), eis que me deparo com a explicação da explicação.
Ou seja, aquilo não foi falta de imaginação e sim um recurso, pois agora sim e da forma mais surpreendente possível finalmente fico sabendo quem verdadeiramente é aquele vilão tatuado e sinistro e porque exatamente ele resolveu transformar a vida do conhecido herói Robert Langdon em um inferno particular, naquela noite em Washington D.C.
Por outro lado, como é sabido, a obra trata da Maçonaria e de seus mistérios. Assim, durante toda a leitura o leitor acaba se questionando se no final haverá algo de concreto a dizer sobre os cobiçados Antigos Mistérios da Maçonaria. Para a minha grande surpresa, a revelação final sobre esse segredos é maravilhosa. A mensagem circunscrita nessa revelação é belíssima.
Por todas essas razões é que me rendi ao camarada Dan Brown. Esse senhor é seguramente um grande escritor e merece a projeção que alcançou. É um novo Umberto Eco? Não, claro que não. Penso que essa nem mesmo é a proposta dele. Eco é um intelectual e seus romances não possuem paralelos.
Dan Brown, por seu turno, possui a grande qualidade de escrever estórias que induzem ao questionamento e à pesquisa. Conforme já dito, um grande escritor.
Não há nada como reconsiderar e, assim, permitir-se novas definições.