'Porque Lulu Bergantim Não Atravessou o Rubicon', de José Cândido de Carvalho, reúne mais de 150 pequenas histórias, muitas delas originalmente publicadas em 'O Jornal', onde o escritor assinava a seção Diário de JCC. Nos textos é apresentado ao leitor um dos mais vastos painéis de tipos brasileiros já reunidos. Lulu Bergantim, do conto que dá nome ao livro, por exemplo, não atravessou o Rubicon, mas fugiu do hospício e se elegeu prefeito. O melhor prefeito já visto em Curralzinho Novo. Tão bom que mereceu até uma estátua. Dona Eucalística Pestana resolveu ficar viúva e serviu ao marido bifes à milanesa com farinha de caco de vidro. Só não podia esperar ser elogiada pelo tempero. Os tipos se multiplicam, algumas vezes picarescos, outras, populares, sempre extraídos do 'povinho do Brasil'.
Porque Lulu Bergantim não Atravessou o Rubicon - Contados, Astuciados,Sucedidos e Acontecidos do Povinho do Brasil
José Cândido de Carvalho
Era uma vez uma onça pintada, escrita e filmada
Era uma vez um Brasil. Nele a população rural era bem maior que a urbana, patentes militares da Guarda Nacional compradas, matar onça-pintada sinal de coragem, mostrar as canelas uma sem-vergonhice, o catolicismo cânone e o correio se fazia por cartas e telegramas. O contraste com o contemporâneo beira o inacreditável; hoje a população urbana é superior a 80% do total, as Forças Armadas completamente profissionalizadas, a onça-pintada ameaçada de extinção e caçá-la covardia ecológica além de crime, sem-vergonhice virou apenas exemplo de hífen na língua portuguesa, o catolicismo não é a religião que mais cresce no país e todos escrevem e-mails ou mails... Ambientado no regional, naquele mundo provinciano e interiorano, José Cândido de Carvalho plantou a sua literatura contista de "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", uma seleção da coluna "O Impossível acontece" da finada revista O Cruzeiro. Uma delícia de leitura. A sua genialidade inventiva e deformadora das palavras, por exemplo [palmatória] confessativa, pormenorizagem, falatinado, capacitismo, brincancista, etc e sobretudo das expressões idiomáticas só encontra rival na poesia, porém nele a alteração é sempre cômica e representa o esforço do interiorano no falar difícil de quem quando não sabe inventa. Inexiste o palavrão no texto, pois afinal nesse mundo o obsceno é pecado. Mas por trás do conservadorismo de fachada, os desejos estão lá; o adultério distribuído equitativamente, a vigarice sob mil formas, o alcoolismo cachaceiro em uma época que desconhecia as drogas, a atração pela beleza da juventude, a corrupção pública e o poder de uma elite agrária. Diante disso José Cândido de Carvalho escreve contos anedóticos e fantásticos. Alguns temas são recorrentes, mas sempre há uma expressão hilária, no mínimo curiosa e pequenas variações que compensam a perda de originalidade - problema comum aos textos inicialmente publicados em colunas de jornais, mesmo em autores do quilate do próprio JCC e Nelson Rodrigues. São centenas e até milhares de textos e é inevitável o esgotamento do autor e a repetição involuntária. Para o leitor aparece a sensação de déjà-vu. Verter a obra de JCC para outros idiomas deve ser uma proeza em virtude da brasilidade e particularidades da escrita, entretanto não é esse o motivo para que uma busca nas páginas das livrarias amazon.com e da Barnes & Noble pelo autor de "O Coronel e o Lobisomem", que já emplacou mais de cinquenta edições em português, não retornarem um único livro traduzido dele - minto, encontrei uma edição com três exemplares à venda nos sebos coligados à amazon.com francesa, outra com um número maior na amazon.com alemã e nada em inglês (exceto em coletâneas de autores brasileiros). A realidade é o desprestígio da nossa cultura no exterior. Por aqui o romance obra-prima "O Coronel e o Lobisomem" possui adaptações para o cinema, a televisão e o teatro, indicadores da sua força criativa, entretanto aparentemente nenhum conto foi aproveitado de "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon", editado pela José Olympio Editora. José Cândido de Carvalho foi membro da Academia Brasileira de Letras.
Estatísticas
Avaliações
3.8 / 41- 5 estrelas44%
- 4 estrelas20%
- 3 estrelas22%
- 2 estrelas5%
- 1 estrelas10%