O segundo volume deste romance épico japonês do século XX narra a história de Musashi, na vida real o grande samurai do Japão da época dos xoguns, de como um jovem selvagem e sanguinário adquire, ao longo de inúmeras lutas e constantes situações de grande perigo, as qualidades e a têmpera que o levaram a ser o maior e mais sábio de todos os guerreiros.
Musashi - O Vento - O Céu
Eiji Yoshikawa
A melhor obra de 2024
Musashi, do jornalista, Eiji Yoshikawa, é o maior fenômeno editorial da história do Japão. com mais de 120 milhões de exemplares vendidos. Tamanho sucesso, pois trata, apenas, do samurai mais famoso, que se tornou a maior lenda samurai do Japão: Miyamoto Musashi. Claro que o tamanho da obra intimida, são 1800 páginas. Além disso, a temática oriental, cheia de aforismos, referências às artes japonesas, ao zen budismo, ao taoísmo. Além de tudo, sua fama absoluta. Somando esses elementos, pode-se ter a impressão de dificuldade, de ser uma leitura pesada, com uma linguagem difícil e temas complicados de se digerir. Porém, a realidade é oposta. Musashi é uma obra fácil de ler e muito divertida, com uma escrita absolutamente ágil, devido ao formato folhetinesco, aos capítulos curtos, muito bem interpolados. Além disso, o autor conseguiu imprimir, de forma delicada a aura mitológica do oriente, mas numa dose, que mantém o realismo, ou seja, apaixona, sem tornar-se um conto mitológico. Eu senti um prazer imenso a cada página dessa jornada. Levei 5 meses para ler, pois me programei para ler um capítulo por dia, poderia ter devorado em 1 mês? Facilmente, mas eu queria sentir a jornada, pois já sabia que a obra é, acima de tudo, um romance de formação. A formação de um samurai. Musashi viveu no Japão, aproximadamente entre 1584 e 1645, e a obra mistura de forma magistral realidade e lenda, pois Musashi tornou-se uma figura lendária, envolta em contradições, boatos infames e a aura de um guerreiro enviado pelos deuses. O romance inicia na Batalha de Sekigahara, em 1600, episódio em que cerca de 150 mil samurais lutaram na mais importante batalha do Japão, cujo grande vitorioso foi o general Togugawa Ieyasu (recentemente retratado na série Xogum). Evento que redefiniu os rumos do Japão em um de seus períodos mais conturbados e, culminou com Togugawa, assumindo o Xogunato em 1603 e com a unificação do país. E é nesta Batalha de Sekigahara que se encontram os amigos de infância Matahachi e Takezo, que, aos 17 anos, foram para a guerra, em busca de glória e fama, mas alistaram-se no exército que terminou derrota e, por um milagre, saíram vivos. E assim inicia a jornada de Takezo, que posteriormente será conhecido como Musashi. Numa jornada de formação, não apenas como guerreiro, mas também de caráter, espírito e filosofia, Takezo dominará seu espírito agressivo e selvagem. Sua trajetória pelo caminho da espada, polirá corpo e alma, desenvolverá sua técnica de duas espadas ao mesmo tempo em que afia o espírito. Musashi percebe que um guerreiro que almeja a excelência não deve ignorar as artes, o conhecimento e mundo (mas essas conclusões são lentas, requerem muito esforço de seu caráter endurecido). O romance também é uma verdadeira aula de história, trazendo toda a perspectiva do pensamento japonês feudal, enriquecido por seus costumes, artes, atitudes e formas de encarar a vida. Esses elementos enriquecem sobremaneira a obra e a leitura. Musashi, aprende e nos ensina grandes lições, seu angustiante descontentamento com o estágio em que se encontra no domínio do manejo da espada, nos ensina a não pararmos nunca. Aliás, ele ensina que o Samurai que se aposenta, já foi derrotado. Sua postura perante a vida, colocando-se como aprendiz diante de tudo e de todos, com humildade, nos mostra que a soberba é o maior empecilho no autodesenvolvimento. Ele chega ao ponto de aprender com um menino de 10 anos, que se torna seu discípulo, pois o menino aprendeu a ser previdente, muito mais que Musashi, e tal lição mostra como o olhar do samurai era perspicaz. Ao longo de quase uma década, o livro retrata essa fase de desenvolvimento, desde Sekigahara, até seu mais importante duelo. Musashi vai encontrando e reencontrando vários personagens, desde velhos amigos, inimigos jurados, o monge que lhe colocou no caminho certo, seu nêmesis e até mesmo o amor de sua vida. Vários eventos e várias personalidades que vão compondo o destino do guerreiro até o seu derradeiro duelo com Sasaki Kojiro, na Ilha Ganryu. Duelo que lhe rendeu aura mítica, homenagens por todo o Japão, inclusive estátuas de bronze em sua homenagem. Nas 1800 páginas nos deleitamos com 61 duelos, todos reais, em que Musashi aprende e se desenvolve. Não há como não se apaixonar pela obra. Para mim, foi a melhor leitura do ano de 2024. Demorei a escrever a resenha, mas era impossível não a fazer. Terminei a leitura já imaginando uma releitura daqui dez anos. Recomendo, não importa seu interesse pelo Japão, ou pela cultura samurai, Musashi é mais que isso, é um romance de formação, sobre uma vida em equilíbrio, sobre vencer a si próprio, sobre amigos e inimigos e sobre qualidade em tudo que você se propor a fazer e, convenhamos, isso tudo precisamos em nossas vidas.
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