A arte de empreender, de assumir riscos e ser obstinado está ligada à convergência dos discursos esportivo, empresarial e de consumo. Estes são apresentados pelo sociólogo francês Alain Ehrenberg em O culto da performance. O autor explica o papel de cada um deles para a excelência na atuação, ou seja, no desempenho em público. Para o sociólogo, todos têm o direito e o dever de serem empreendedores, de se formarem por conta própria por meio do seu desempenho. Além de esmiuçar as características dessa nova tendência, Ehrenberg alerta o leitor sobre as dolorosas consequências desse regime obstinado de excelência.
O culto da performance - da aventura empreendedora à depressão nervosa
Alain Ehrenberg
Desempenho e superação são palavras de ordem no vocabulário neoliberal, presentes cada dia mais nas conversas de jovens que desejam a todo custo, num curto espaço de tempo, ser bem-sucedidos. Diga-se de passagens que, ser bem-sucedido nesta racionalidade, obrigatoriamente está atrelado a condição material ostentada. O individuo de hoje pra ter reconhecimento social, precisa ter um ótima performance na vida profissional, ou seja, SER EMPREENDEDOR. Ele deve andar numa Land Rover, morar num apartamento de no mínimo meio milhão de reais e postar fotos nas redes sociais brindando o sucesso com espumante importado. Se você não atingiu este status, é porque você fracassou. É isso que a mídia vende. Bem, o fato é que, diante da escassez de empregos (aumento drástico no número de desempregados) e principalmente da perda de inúmeros direitos trabalhistas e sociais, não resta outra saída ao sujeito, a não ser encarar de forma solitária e enlouquecida o jogo concorrencial, buscar no microempreendedorismo individual um fonte de renda. E pra isso é preciso uma atuação impecável. O culto da performance, ascendente desde a década de 80, foi estratégia para construir uma mentalidade de massa em relação ao individuo S.A. Onde o sujeito que se deu bem na vida foi pelo esforço e mérito seu, e aquele que fracassou deve arcar com as responsabilidades, pois, as oportunidades são iguais para todos. Nesta obra, o autor costura basicamente três pontos para demonstrar tal estratégia de convencimento. Esporte enaltece que somente os melhores vencem, e esses são idolatrados. Exalta-se que a vitória só é possível devido a determinação e garra do atleta. Consumismo deixa de ser uma prática alienadora e passa a ser uma espécie de recompensa e realização pessoal. Empresários deixam de ser símbolo de exploração, se desconstrói a imagem de indivíduo oportunista. Passam a ser considerados exemplos de sucesso, heróis, modelos de coragem, audaciosos, que venceram. Enfim, perante este cenário, o que normalmente não se discute é o efeito colateral da atual vida frenética. Temos hoje uma sociedade cansada, adoecida, esgotada mentalmente e fisicamente, uma sociedade medicalizada. Para manter o alto desempenho e poder chegar ao inatingível sucesso dos bilionários apresentados pela mídia, recorre-se sem piedade as drogas. Da mesma forma, para conseguir o oposto, se acalmar e poder descansar, recorre-se aos medicamentos. Ou seja, o resultado é simplesmente uma sociedade altamente dependente de psicotrópicos, a beira do precipício.
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