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    Cemitério de Elefantes (Vera Cruz #78) -

    Dalton Trevisan

    Civilização Brasileira
    1972
    168 páginas
    5h 36m
    Português Brasileiro
    3.7
    337 avaliações
    Leram609Lendo28Querem391Relendo0Abandonos13Resenhas22
    Favoritos0Desejados391Avaliaram337

    Livro de Contos.

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    Jacqueline picture
    Jacqueline09/02/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Peculiar

    Antes de tudo, quem é Dalton Trevisan? Reconheço uma certa dificuldade de encontrar informações sobre esse escritor curitibano, ele é uma pessoa reclusa, tímida e não é um escritor que gosta dos holofotes, não para a pessoa dele em si e sim, para sua obra. É aquele escritor que consegue separar o autor da obra. Para conhecer um pouco mais sobre esse admirável autor fiz algumas pesquisas na internet, e encontrei um documentário bem interessante sobre sua vida (pouca coisa) do ponto de vista de pessoas que conhecem ou que já o conheceram, o que me deu um panorama mais amplo de suas influências e sua forma de escrever. Primeiro livro que tive contato "Cemitério de Elefantes" contendo 23 contos e o último conto que dá título ao livro, publicado em 1964, porém minha edição é de 1998 o que pode dizer que já há diferenças dessa 14º edição para a sua 1º, mas por quê? De acordo com conhecidos do autor, Dalton faz mudanças em cada edição de suas obras, toda reedição haverá uma palavra cortada, uma troca de palavras, um enxugamento de texto. Dalton preza por repassar uma mensagem com o mínimo de informações desnecessárias, com ele você não irá encontrar o famoso "encher linguiça". O leitor de Dalton deve ser atento, eu por exemplo, li alguns de seus contos mais de uma vez, para conseguir conectar os sentidos, você deve ler nas entrelinhas e fazer a conexão com os acontecimentos. É um livro de apenas 103 páginas, mas tive a impressão de ter lido muito mais rsrs. É evidente nos contos os temas familiares, praticamente todos com dilemas referente a conflitos de família direto ou indiretamente, Dalton expõe em seus textos assuntos que praticamente todos já passamos em nossas famílias, se não, pelo menos já ouvimos falar de algo como: alcoolismo, violência doméstica, patriarcado, traições, machismo, feminicídio, impasses entre pais e filhos, ciúme, vingança, desconfianças, honra, assassinato. "Primeira noite ele conheceu que Santina não era moça. Casado por amor, Bento se desesperou. Matar a noiva, suicidar-se, e deixar o outro sem castigo? Ela revelou que, havia dois anos, o primo Euzébio lhe fizera mal, por mais que se defendesse. De vergonha, prometeu a Nossa Senhora ficar solteira. … Santina pediu perdão, ele respondeu que era tarde - noiva de grinalda sem ter direito." p. 07 (O Primo) "Segunda vez, o filhinho choramingava, inquieto na cama. Miguel pediu que o ajeitasse, ela respondeu mal. Acertou um tabefe no olho de Elvira que rolou sobre a máquina de costura." p. 16 (Questão de Família) Também presente em sua obra, temas como a prostituição, exploração de crianças e solidão. Dalton evidencia a tragédia humana, a banalização do ser humano, mostrando de forma dura a miséria humana, a indiferença ao outro. Não é fácil digerir tais histórias, algumas trazem desconforto durante a leitura, como o conto "Dinorá, moça do prazer", onde uma menina pobre e órfã de 15 anos é acolhida por uma cafetina que lhe engana e a transforma em uma prostituta sendo seu primeiro cliente um homem com mais de 60 anos. O conto é o relato da garota nesse momento em que é trancada no quarto com esse homem, toda sua angústia e o desejo pervertido do velho. Esse foi um dos contos que me deixou mais incômoda, pois ela se vê totalmente indefesa diante da situação. "Apelei para todos os meios de defesa que reclama a honestidade. O cruel assassino gargalhou sinistro e, desfazendo-se do colarinho engomado, voltou à carga. Servia-se com desenvoltura das armas usadas em tais embates, as mais pérfidas que se pode imaginar e impossível seria descrever. _ Mata-me, ó bruto apache! não possuo mais. Eu morro..." p. 53 (Dinorá, moça do prazer) As histórias de Dalton são recortes de um momento, não há finais felizes, há apenas o corte de uma ação relatada, apenas a crua exposição como uma manchete de notícia trágica de jornal. Algo frequente nos contos é a mediocrização da vida em relação ao outro e a falta de empatia pelo ser humano. Muito evidente no conto "Uma vela para Dario", onde um senhor passa mal em uma calçada e de acordo que alguns param para "ajudar" os seus itens pessoais vão desaparecendo, muita gente começa se aglomerar e nenhum faz nada para ajudar realmente Dario. Esse é um dos contos mais difíceis de se ler, onde mostra tantas pessoas que poderiam acudí-lo mas só se vê barulho e nenhuma ação realmente eficiente. Dalton consegue mostrar a indiferença e crueldade humana de forma muito vívida. "A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata." p. 39 (Uma vela para Dario) E como não falar do conto que levou o título do livro "O Cemitério de Elefantes", aqui se nota todo a repulsa ao que não se adequa aos padrões da sociedade, o conto que relata alguns bêbados que ficam nos fundos de um mercado de peixes, e se reúnem e se igualam em suas insignificâncias diante aos outros que os vêem apenas como vagabundos sem sentimentos e um fim. Mas esses bêbados carregam em si emoções e se mantém unidos pela única coisa em comum, serem a escória dos que não os querem que pertençam a algo. A alusão a "Elefantes" é dada pelos seus pés inchados e feridos por pernilongos como patas de elefantes. "Elefantes malferidos, coçam as perebas, sem nenhuma queixa, escarrapachados sobre as raízes que servem de cama e cadeira. Bebem e beliscam pedacinho de peixe. Cada um tem o seu lugar," p. 101 (Cemitério de Elefantes) É evidente a forma peculiar e única de Dalton Trevisan. Seu contos são curtos, diretos, mas longe de serem rasos, pelo contrário, ele tem a capacidade de colocar muita informação em 2 ou 3 páginas e que você consegue extrair uma compreensão tremenda do que ele tem a dizer, de forma direta e as sensações nas entrelinhas. Contos de pessoas normais, que poderiam ser seus vizinhos ou conhecidos, aquele fato que alguém te contou em uma parada de ônibus ou em uma conversa informal. Essa é a essência de seus contos, pelo menos o que pude captar, mas fico longe de tentar interpretar a genialidade desse grande escritor curitibano e que tive a honra de conhecer tão tardiamente. Boa Leitura! Documentário Citado: Daltonismo - 2012 Direção: Célio Yano End. Digital: https://www.youtube.com/watch?v=sTkzOqoiZVs

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    Dalton Trevisan profile picture

    Dalton Trevisan

    É um escritor brasileiro de Curitiba, Paraná. Importante contista da literatura brasileira, Dalton Trevisan foge de entrevistas e exposições ao público e até mesmo de premiações. Por esse motivo é conhecido como "Vampiro de Curitiba", nome de um de seus mais conhecidos livros. Para seus contos e personagens, inspira-se em habitantes da cidade e trata de situações de significado universal. Tornou-se cada vez mais minimalista em seus contos e tem apenas um romance publicado, "A Polaquinha". E QUE ROMANCE! Dalton Jérson Trevisan (Curitiba, 14 de Junho de 1925) é um advogado, escritor, autor, e um dos maiores contistas brasileiros de todos os tempos, famoso por seus livros de Contos, especialmente "O Vampiro de Curitiba" (1965), e por sua natureza misteriosa, reclusa e reservada. Ele estudou no Colégio Estadual do Paraná e trabalhou, durante sua juventude, na fábrica de vidros de sua família. Depois de se formar pela Faculdade de Direito do Paraná (atual Universidade Federal do Paraná), chegou a exercer a advocacia durante 7 anos. Quando era estudante de Direito, Trevisan costumava lançar seus Contos em modestos folhetos. Ele liderou o grupo literário que publicou, entre 1946 e 1948, a revista 'Joaquim'. O nome, segundo ele, era "uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil". A publicação tornou-se porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas. Reunia Ensaios assinados por Antonio Cândido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux e Poemas até então inéditos, como "O Caso do Vestido", de Carlos Drummond de Andrade. A revista também trazia traduções de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e era ilustrada por artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. A publicação, que circulou até Dezembro de 1948, continha o material de seus primeiros livros de Ficção, incluindo "Sonata Ao Luar" (1945) e "Sete Anos de Pastor" (1948) - duas obras renegadas pelo autor. Em 1954, ele publicou o "Guia Histórico de Curitiba", "Crônicas da Província de Curitiba", "O Dia de Marcos" e "Os Domingos ou Ao Armazém do Lucas", edições populares à maneira dos folhetos de feira. Inspirado nos habitantes da cidade, ele criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e os costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular, que valoriza os incidentes do cotidiano sofrido e angustiante. Ele publicou também "Novelas Nada Exemplares" (1959) e ganhou o 'Prêmio Jabuti' da Câmara Brasileira do Livro. Como era de se esperar, enviou um representante para recebê-lo. "Morte na Praça" (1964), "Cemitério de Elefantes" (1964) e "O Vampiro de Curitiba" (1965). Isolado dos meios intelectuais e concorrendo sob pseudônimo, Trevisan conquistou o primeiro lugar do 'I Concurso Nacional de Contos' do Estado do Paraná, em 1968. Escreveu depois "A Guerra Conjugal" (1969), posteriormente transformada em um premiado filme, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, "Crimes da Paixão" (1978) e "Lincha Tarado" (1980). Em 1994 publicou "Ah, é?", obra-prima do estilo minimalista. Seu único Romance publicado é o maravilhoso erótico "A Polaquinha". É reconhecido como um dos mais importantes contistas da literatura brasileira por grande parte dos críticos do país. Entretanto, é avesso a entrevistas e exposições em órgãos de comunicação social, criando uma atmosfera de mistério em torno de seu nome. Por esse motivo, ele recebeu a alcunha de "Vampiro de Curitiba", nome de um de seus livros. Ele assina apenas "D. Trevis" e não recebe a visita de estranhos. Prêmios: Foi eleito por unanimidade vencedor do 'Prémio Camões' de 2012, ano em que também recebeu o 'Prêmio Machado de Assis', da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. SUAS OBRAS: Novelas Nada Exemplares (1959) Cemitério de Elefantes (1964) Morte na Praça (1964) O Vampiro de Curitiba (1965) Desastres do Amor (1968) Mistérios de Curitiba (1968) A Guerra Conjugal (1969) O Rei da Terra (1972) O Pássaro de Cinco Asas (1974) A Faca No Coração (1975) Abismo de Rosas (1976) A Trombeta do Anjo Vingador (1977) Crimes de Paixão (1978) Primeiro Livro de Contos (1979) Vinte Contos Menores (1979) Virgem Louca, Loucos Beijos (1979) Lincha Tarado (1980) Chorinho Brejeiro (1981) Essas Malditas Mulheres (1982) Meu Querido Assassino (1983) Contos Eróticos (livro) (1984) "A Polaquinha" (Romance Erótico) (1985) Noites de Amor em Granada Pão E Sangue (1988) Em Busca de Curitiba Perdida (1992) Dinorá - Novos Mistérios (1994) Ah, É? (1994) 234 (1997) Vozes do Retrato - Quinze Histórias de Mentiras e Verdades (1998) Quem Tem Medo de Vampiro? (1998) 111 Ais (2000) Pico Na Veia (2002) 99 Corruíras Nanicas (2002) O Grande Deflorador (2002) Capitu Sou Eu (2003) Continhos Galantes (2003) Arara Bêbada (2004) Gente Em Conflito (com Antônio de Alcântara Machado) (2004) Macho Não Ganha Flor (2006) O Maníaco do Olho Verde (2008) Uma Vela Para Dario (talvez 2008) 35 Noites de Paixão - Contos Escolhidos (2009) Violetas e Pavões (2009) Desgracida (2010) Mirinha (2011) Nem Te Conto, João (2011) O Anão E A Ninfeta (2011) Novos Contos Eróticos - Antologia (2013) A Mão Na Pena (2014) O Beijo Na Nuca (2014) Logo abaixo, os dois primeiros livros publicados, que o autor renega (editores desconhecidos): Sonata ao Luar (1945) Sete Anos de Pastor (1948) No exterior: Novelas Nada Ejemplares - tradução de Juan Garcia Gayo, Monte Avila - Caracas (1970) De koning der aarde (O Rei da Terra) - tradução de August Willemsen - Amsterdam (1975) The Vampire of Curitiba and Others Stories - tradução de Gregory Rabassa, Alfred A. Knopf - Nova York (1972) El Vampiro de Curitiba - tradução de Haydée M. J. Barroso, Ed. Sudamericana - Buenos Aires (1976) De vijfvleugelige vogel (O Pássaro de Cinco Asas) - trad. August Willemsen - Amsterdam (1977) Ehekrieg (Guerra Conjugal) - (coletânea de contos, não corresponde ao livro "A Guerra Conjugal") - tradução de Georg Rudolf Lind, Ed. Suhrkamp - Frankfurt (1979) Antologias: Contos em Antologias alemãs (1967 e 1968), argentinas (1972 e 1978), americanas (1976 e 1977), polonesas (1976 e 1977), sueca (1963), venezuelana (1969), dinamarquesa (1972) e portuguesa (1972). Filme: Guerra Conjugal (1974), histórias e diálogos do autor, roteiro e direção de Joaquim Pedro de Andrade.

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    Paraná, Brasil

    Dalton Trevisan