Paul Hazard teve o raro e digno dom de resumir calhamaços de histórias e filosofias em um livro de linguagem envolvente, assertiva e suscinta. Escrever sobre a renascença e a formação da era iluminista é algo tão prolixo quanto complicado.
1ª dificuldade: geralmente os historiadores modernos já estão embebecidos do partidarismo e do preconceito historiográfico. Hazard escreve a história como se fosse um narrador atento que está, ao mesmo tempo que aprofundando o conteúdo analítico, também está simplificando ― sem preferências ― o entendimento dos fatos tais como ocorreram.
2ª Sabemos ser idiotice pedir para falar somente de “história” diante de um livro que versa sobre a história de uma era de ideias. No entanto, poucos foram os que conseguiram escrever a filosofia dessa época sem demonstrar paixão ideológica. Se já é difícil escrever a história sem declarar suas inclinações, imagine sobre filosofia. Pois é, Paul logra êxito nisso também.
3ª, por fim, Hazard oferece um guia de estudo que não necessariamente se atenta aos já consagrados pensadores da época biografada, ele joga luz nas entrelinhas e conexões que realmente criaram as vias para a modernidade e que, geralmente, são negligenciadas. Ou seja, antes mesmo de ser um livro histórico-enciclopédico, é um guia de estudos expositivo sobre o que realmente é importante saber dos 35 anos que mudaram os rumos da Civilização na Modernidade.
O mérito filosófico do livro ― que é o que mais me interessa ― está na elucidação cabal do autor para o fato de que a “Idade da Razão” foi majestosamente movida por paixões anticlericais, um afoito desprezo à tradição, e uma boa pitada de romantismo sempre vivificante. A razão era, ao mesmo tempo, instrumento e desculpa para as guinadas políticas e religiosas que vários intelectuais buscavam em seus momentos de egocentrismo e glória.
Isso quer dizer que tal era foi ruim? O historiador não faz esse julgamento, ele simplesmente desapaixona a era estudada para que ela seja olhada com realidade, e não com idealismo. Aponta que nenhuma era é, de antemão, gloriosa, só é a era com seus vícios e escolhas, assim como as passadas já tiveram e as futuras terão as suas.