Redigido entre novembro de 1939 e março de 1940, Diário de uma guerra estranha, de Jean-Paul Sartre, é, segundo ele mesmo, "um testemunho que vale para milhões de homens". Obra Póstuma por vontade expressa do escritor francês, contém revelações surpreendentes a respeito do que ele era aos 35 anos: um intelectual que assumia suas contradições e cuja paixão de compreender os homens fazia ao mesmo tempo com que não ambicionasse "ser um grande escritor, apenas alguém do bem'.
Diário de Uma Guerra Estranha - A "Drôle de Guerre"
Jean-Paul Sartre
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Jean-Paul Sartre, um dos principais expoentes do existencialismo, constrói em Diário de Uma Guerra Estranha um relato íntimo e filosófico de sua experiência durante a Segunda Guerra Mundial. O livro é uma coletânea dos cadernos escritos por Sartre entre setembro de 1939 e março de 1940, período conhecido como "Drôle de Guerre" ou Guerra Estranha um momento de tensa expectativa em que a França, apesar de ter declarado guerra à Alemanha, viveu meses sem grandes combates diretos. Sartre, mobilizado como meteorologista para o exército francês, utiliza esses registros para refletir não apenas sobre os acontecimentos do front, mas também sobre sua própria visão de mundo. Em meio à espera, ao tédio e à sensação de absurdo, o autor desenvolve ideias que mais tarde se consolidariam em sua filosofia existencialista. Há aqui um embrião dos conceitos fundamentais de sua obra-prima O Ser e o Nada, como a liberdade, a angústia e a má-fé. Os escritos de Sartre combinam análise política, relatos do cotidiano e questionamentos filosóficos. Ele narra o desconforto da vida militar, a convivência com outros soldados, a monotonia das trincheiras e suas reflexões sobre a sociedade e a condição humana. Sua escrita flui entre o desabafo pessoal e a crítica, revelando uma mente inquieta, que não se contenta com a mera observação passiva dos eventos. A guerra, para Sartre, não é apenas um conflito entre nações, mas um cenário que expõe a vulnerabilidade da existência. Ele observa como o medo, a espera e o absurdo do momento fazem com que os soldados se comportem de maneira contraditória, oscilando entre o heroísmo ilusório e o conformismo da rotina militar. Sua visão de liberdade e responsabilidade individual emerge com força, e é possível perceber como ele confronta suas próprias inseguranças e crenças enquanto testemunha um mundo em colapso. Além da profundidade filosófica, o Diário de Uma Guerra Estranha também apresenta um retrato humano e realista de Sartre, mais pessoal do que o intelectual rigoroso de suas obras teóricas. Aqui, ele se mostra vulnerável, cético e, em alguns momentos, até mesmo melancólico. Sua relação com Simone de Beauvoir, suas leituras e sua preocupação com o destino da França aparecem como fios condutores de seu pensamento. Com uma escrita envolvente e uma visão de mundo única, Diário de Uma Guerra Estranha é um testemunho histórico e filosófico de um dos períodos mais turbulentos do século XX. Para aqueles que se interessam pela obra de Sartre, pelo existencialismo ou pelo impacto psicológico da guerra, este livro é uma leitura essencial e fascinante. Comentário sobre a obra; Diário de Uma Guerra Estranha é uma obra que transcende o simples relato de um período histórico. Em suas páginas, Sartre não apenas registra os eventos da chamada "guerra estranha", mas também nos oferece uma imersão profunda em sua psique, revelando como a experiência da guerra ressoa em sua filosofia existencialista. O grande mérito do livro está na maneira como Sartre transforma o tédio, a espera e a iminência do conflito em matéria filosófica. Diferente de memórias de guerra convencionais, que muitas vezes enfatizam a ação e o heroísmo, este diário é um testemunho do vazio, da incerteza e da alienação. Sartre nos faz sentir o absurdo da guerra antes mesmo de seu estouro total, expondo a desorientação dos soldados franceses que vivem um conflito sem batalha, uma guerra que ainda não parece guerra. Além disso, o livro mostra um Sartre em transformação. Ao longo das anotações, ele se debruça sobre suas leituras, reflete sobre sua escrita e se desafia intelectualmente. É possível perceber como esse período molda sua visão sobre liberdade e compromisso, conceitos que seriam fundamentais em suas obras futuras. Ao mesmo tempo, há um certo desencantamento e uma franqueza rara: Sartre reconhece seus próprios medos, suas dúvidas sobre o futuro e a dificuldade de manter sua identidade intelectual em meio à rotina militar. Outro aspecto fascinante da obra é seu valor como documento histórico. O leitor pode acompanhar, através dos olhos de Sartre, o desdobramento da guerra em suas fases iniciais e como os intelectuais franceses da época lidaram com essa nova realidade. Sua análise política e social não é isenta de críticas, especialmente em relação à apatia da França e à confusão generalizada sobre o verdadeiro significado do conflito. Por fim, Diário de Uma Guerra Estranha é um livro de transição. Ele une o Sartre escritor e pensador ao Sartre personagem de sua própria existência. Sua prosa oscila entre o introspectivo e o analítico, sempre carregada de ironia e uma sinceridade quase brutal. É um livro que dialoga tanto com aqueles interessados em filosofia quanto com leitores que buscam compreender o impacto da guerra sobre a mente humana. Longe de ser apenas um relato de guerra, a obra se torna um testemunho da condição humana diante do absurdo e da espera temas que, mais do que nunca, permanecem atemporais. Romeu Felix Menin Junior
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