Anais dos Encontros Brasileiros de Palácios, Museus-casas e Casas Históricas, 2011-2012 -

    Editor: Curadoria do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo; organização: Ana Cristina Carvalho

    Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
    2012
    208 páginas
    6h 56m
    Português Brasileiro

    A nova mentalidade do homem contemporâneo, com suas novas formas de agir e pensar, exige uma redefinição das noções de museu e de seus múltiplos usos e funções. Assim, os debates e reflexões sobre o tema são fundamentais nesse processo de reconstrução do espaço que o museu ocupa na sociedade. Este texto introdutório aborda as várias definições correntes dos museus-casas, suas potencialidades do ponto de vista das funções que exercem e algumas experiências museológicas que vêm sendo vividas pela Curadoria do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. São muitos os termos usados para nomear casas que também são museus. O termo generalista internacional historic house museums engloba duas categorias: casas históricas e casas-museus. No Brasil, o termo é segmentado. Denominados por alguns “museu-casa” e, por outros, “casa-museu”, constituem espaços abertos ao público, que reúnem as características museológicas exigidas pelo ICOM e apresentam, especialmente, a relação entre a casa, o acervo e o proprietário. O trinômio conteúdo, espaço arquitetônico e habitante tem muito impacto emocional, pois trata de relações humanas, mesmo que seu acervo seja uma reconstituição para difundir a história e uma referência arquitetônica, estética, social ou política. As casas históricas e os palácios, por sua vez, não necessariamente estão abertos ao público e podem não abrigar coleções, bastando que sejam representativos do patrimônio local ou de um período da história. No entanto, esse formalismo de dar atributos funcionais a esses espaços nem sempre é um sistema rígido. Existem casas históricas que são também casas-museus, palácios que são casas históricas e palácios que são museus. De início, cabe explicar porque os palácios do Governo de São Paulo estão associados a essa tipologia de museus – os museus-casas –, classificados assim por sua atmosfera do cotidiano de uma casa, seja ela residencial urbana ou rural, mais suntuosa ou simples. Os palácios abrigam importantes coleções de arte e, assim, poderiam estar na categoria de museus de arte. No entanto, o fato de serem, ao longo do tempo, residências do governador do Estado e sedes do poder administrativo constitui espaços ambientados com um acervo artístico que potencializa as narrativas históricas, permitindo, assim, leituras contextualizadas das obras, e não isoladas de seu conjunto. Sendo assim, o ambiente expositivo é ativo, e o modo de fruição é determinado pela narrativa, que considera a relação do homem com o objeto, impregnado de fatos históricos, políticos e sociais. No I Encontro Brasileiro de Palácios, Museus-Casas e Casas Históricas, realizado no Palácio dos Bandeirantes e no Palácio Boa Vista, em São Paulo, as discussões enfocaram as possibilidades desses espaços para despertar o interesse do público e atrair os visitantes. Na conferência de abertura, o professor Ulpiano Bezerra de Menezes destacou a importância de explorar as múltiplas funções dos museus. Assinalou que “é necessário que o potencial do museu jamais se reduza a um feixe restrito e limitado de funções, seja do ponto de vista programático, seja pela multiplicidade de expectativas e práticas dos próprios usuários”. Acrescentou, ainda, que as funções prioritárias do museu são a contemplação estética, a afetividade e subjetividade, a informação e educação, um lugar de devaneio e invenção imaginária, e o espaço como capital cultural. Dentre essas, quero destacar duas funções que muito se aproximam do universo dos museus-casas: a afetividade e a dimensão onírica. A primeira, a afetividade, justifica-se porque as relações subjetivas que se estabelecem entre as pessoas e objetos expostos em ambientes de uma casa que é museu são absolutamente diferentes das mesmas relações no contexto de um museu de arte ou de história. No museu-casa, a atmosfera de afeto e a presença humana sinalizam um lugar próprio de descoberta da memória e construção de identidades pessoais. A vida e todo o seu cotidiano cabem em paredes impregnadas de existências representadas pelas coleções dos personagens que ali viveram ou de períodos da história das sociedades. A segunda função, “lugar de devaneio e invenção imaginária”, encontra um campo bastante fértil no museu-casa, cujo contexto propicia ao visitante o despertar da capacidade de sonhar. Ao ocupar simbolicamente os territórios da memória, tem o poder de transformar, de construir novos paradigmas culturais, de trabalhar conflitos, tensões e consensos consolidados. Nesse sentido, o tempo que se evoca no museu-casa é passado, presente e futuro, apreendido pela mediação sensorial do objeto. O movimento de recuperação da memória cria e articula o futuro, por meio de sinais, sons, cheiros e gostos provocados pelos cotidianos expostos dos ambientes. Além disso, esses museus e casas históricas têm a capacidade de estabelecer a relação urbanística com o local onde está situado, e, especialmente, a relação simbólica. Os significados simbólicos e psicológicos que eles podem trazer dão conta da continuidade da história da arte, da cidade e das histórias social e econômica. Do ponto de vista de fruição estética, um passeio pelos ambientes de um museu-casa ou de uma casa histórica – que celebra a memória de um personagem, fatos e períodos da história – proporciona observar os objetos em seu conjunto, os padrões de formas e suas origens, os hábitos e costumes de diferentes épocas e povos, as aproximações de estilos entre as peças, o gosto e suas interpretações. Outros museus, como os de arte, também possibilitam essas leituras, mas, diferentemente dos museus-casas, necessitam de museografias com cenografias adequadas para despertar os sentidos da vivência do dia-a-dia. O que difere, portanto, o museu-casa de outras tipologias de museus é a dimensão do cotidiano de uma casa, uma cenografia natural e autêntica que permite perceber cada detalhe e originalidade do espaço, do objeto e da história de vida.

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