Um conto de fadas que se tornou realidade e um príncipe um tanto... irresistível?
Qual seria a sua reação ao saber que o seu pai é o rei da Krósvia? Não sei você, mas para mim seria como ganhar na loteria. Depois de duas décadas, Ana finalmente conhece seu pai biológico (e não é qualquer cara, não, é um rei!). O choque dessa revelação foi grande, mas a curiosidade em conhecê-lo melhor, principalmente por ser ele quem era, foi maior. Ana sempre quis saber como seria ter uma figura paterna em sua vida e, de repente, o pai dos sonhos aparece do nada, como se tivesse saído de um conto de fadas épico e antiquado. Após sua mãe esclarecer o mistério da sua origem, Andrej Markov deseja recuperar o tempo perdido com a filha e a convida para passar uma temporada em seu país. Mais do que isso, Andrej anseia que Ana Carina assuma seu lugar de herdeira e futura rainha. Quando a sua estadia chegar ao fim, a recém-descoberta princesa terá que decidir entre ficar no Brasil ou mudar-se para a Krósvia. Se mudar para um país no sudeste da Europa pode ser extremamente tentador e, ao mesmo tempo, assustador. Como se não bastasse esse dilema, Alexander — enteado do Andrej e tutor da Ana na Krósvia — parece não gostar muito da sua presença no castelo. Sendo assim, a jovem princesa se sente indesejada e solitária na maior parte do tempo. No entanto, quanto mais Alex conhece Ana, mais ele percebe que a princesa não era quem imaginava. E quanto mais Ana se aproxima do Alex, mais indecisa fica. Afinal, qual será a sua decisão? Permanecer na Krósvia ou voltar para o Brasil?
Foi uma delícia reler “Simplesmente Ana”! Não lembro quantos anos tinha quando li pela primeira, talvez 12 anos, mas de uma coisa tenho certeza: a releitura foi muito melhor do que a primeira vez que li. Mergulhei profundamente na nostalgia e não quis voltar para a superfície tão cedo. Há algo de encantador em uma leitura nostálgica, e fiquei surpresa ao perceber que a nostalgia pode ser mais especial do que a magia de ler um livro pela primeira vez. Acredito que isso se deve também ao fato de eu estar mais velha e, consequentemente, mais madura. Agora me identifico muito mais com a Ana. Aprendi algumas lições preciosas com esse livro que tenho certeza de que a minha menina de 12 anos leu, se rebelou e não colocou em prática. O final é previsível porque é o caminho mais sensato, mas não deixa de ser um ótimo conselho para quem está começando a árdua caminhada da vida adulta. Tenho a sensação de que as pessoas com mais de 20 anos não são livres para errar e serem imaturas. Ana, por exemplo, teve algumas atitudes imaturas ao longo da história. Faltando poucas páginas para o final, a muié teve um surto que ave-maria, mas depois reconheceu seu erro e pediu desculpas. Afinal, os adultos não são assim? E a Ana mal havia saído da adolescência. Não posso dizer o mesmo do Alex, que tinha 25 anos. A questão é que somos muito julgados pela idade e parece que ninguém considera o quão difícil é abandonar a adolescência e se acostumar com a fase adulta.
Esse livro só não é cinco estrelinhas para mim devido ao Alexander. Sempre tem que ter um empecilho, né? Nesse caso, o empecilho é o “príncipe” que está mais para um bad boy com coroa — sendo a coroa somente um título, já que ele nunca apareceu com uma coroa na cachola. Para começar, a namorada do Alex é completamente desnecessária (e irritante). É como se a autora precisasse de uma pedra gigantesca no meio do caminho para atrapalhar os avanços entre os protagonistas, e escolheu Laika para ser essa pedra. Mesmo sendo uma mulher mimada e arrogante, não achei justo o que ela passou. Laika obviamente estava muito insegura com seu relacionamento e temia perder o namorado para a sensação do momento: Ana Carina Bernardes Markov, uma brasileira arretada de Belo Horizonte e recém-descoberta princesa da Krósvia. O caráter do Alex é duvidoso porque, em nenhum momento durante o desenvolvimento da trama, ele decidiu terminar com Laika e a poupar de mais sofrimento e humilhação. Alexander só terminou com a namorada quando já era tarde demais e o estrago tinha sido feito. E sabe o que é pior, meninas? Infelizmente, não posso escrever porque seria spoiler, então vocês vão ficar na curiosidade (olha como sou boazinha).
Resumidamente, a autora deu a entender que o protagonista masculino estava confuso e por isso não havia tomado nenhuma atitude até quase o final da história. Como se Alex quisesse ter a certeza de que amava Ana antes de pôr fim ao seu relacionamento que não estava bom fazia um bom tempo. Cara, se ele estava infeliz com a Laika (nome de cachorro, ou melhor, cachorra), por que não terminou antes? Contudo, isso parece ser um retrato doloroso da realidade porque conheço muitos homens como Alex. Acho que a autora tinha em mente criar um príncipe mais moderno, mas infelizmente Alexander se tornou mais um bad boy de meia tigela. Uma pena porque a escrita da Marina Carvalho é muito fluida e divertida, me rendeu boas gargalhadas. A alegria da Ana é contagiante e, como uma boa brasileira, é um pouco maluca das ideias. Aliás, a escrita da Marina me lembrou muito a escrita da minha escritora nacional favorita: Carina Rissi. Nossa, teve um momento que cheguei a conferir a capa para ter certeza de que não estava lendo um dos romances da Carina. Entretanto, a minha amada Carina Rissi nunca me decepciona com os seus protagonistas masculinos de tirar o fôlego. A Marina tem que desenvolver melhor os seus protagonistas masculinos porque esse aqui foi só ladeira abaixo.
“Simplesmente Ana” é assim: uma leitura que lembra o calor do verão no Brasil e te aquece por inteiro, seja de uma alegria radiante ou de uma raiva descontrolada. Mas, ao mesmo tempo, te faz querer se enrolar em um cobertor quentinho e macio para se proteger do frio da Krósvia e fazer brigadeiro para se deliciar enquanto lê. O ponto alto do livro não é o romance, mas isso não significa que a leitura seja um desperdício de tempo. Embora o romance não seja daqueles apaixonantes, a história vai te mostrar um lado sensível da vida adulta, que irá te tocar de maneira delicada, principalmente se você estiver na faixa etária dos vinte anos. Você certamente não precisa cortar as suas lindas asas para permanecer com os pés no chão. Ana vai segurar na sua mão e você vai aprender com ela como é difícil crescer. Como é difícil ser madura, sendo que às vezes tudo o que a gente quer é o colo da nossa mãe, os valiosos conselhos da nossa avó e a presença diária da nossa melhor amiga(o). Crescer é difícil, mas quem disse que seria fácil?