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    A Hora do Diabo -

    Fernando Pessoa

    Assírio & Alvim
    1997
    70 páginas
    2h 20m
    ISBN-13: 9789723709476
    Português
    4.1
    132 avaliações
    Leram180Lendo7Querem50Relendo1Abandonos1Resenhas24
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    Depois do baile de Carnaval, numa rua cheia de luar, o Diabo fala com Maria, para quem este é apenas um rapaz mascarado de Mefistófeles. Autodenominando-se “Deus da Imaginação”, a quem Maria deve os seus pensamentos com o Príncipe Encantado, bem como os seus sonhos com o Homem Perfeito ou o amante interminável, o Diabo descreve-lhe as suas melhores criações, o luar e a ironia, explicando-lhe como os crentes tremem do seu nome e as igrejas o abominam. Mas, em vez de impressionar Maria, esta demonstra-lhe a imensa pena que por si sente, e observa a expressão de angústia que perpassa pelo rosto e olhos do homem vermelho, ao deixar de súbito cair o braço que enlaçava o dela. Refere Teresa Rita Lopes, no posfácio a esta obra, que A Hora do Diabo, juntamente com Fausto, o poema dramático que Pessoa foi escrevendo ao longo da vida, é um dos mais longínquos projectos do jovem Pessoa, correspondendo este texto, não a uma curiosidade literária, mas a um tema que o poeta sempre desejou desenvolver. Fonte: http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=6303

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    mpettrus30/08/2022Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A Boca Filosófica do Diabo

    O conto “A Hora do Diabo” é um dos textos mais intrigantes de Fernando Pessoa por usar referências do esoterismo ocidental dentro da narrativa, o que nos convida a cada parágrafo a decifrar seus significados mesmo valendo-se de elementos tão herméticos, embora, não tão impossíveis de serem compreendidos. ​O conto narra o encontro, em uma dimensão além do tempo e do espaço, entre uma mulher chamada Maria, grávida de três meses, e Satã, figura consideravelmente presente nos escritos juvenis de Pessoa e que, no conto, atua como uma espécie de hierofante do filho que sua interlocutora carrega no ventre. Nesse ponto aqui, evidenciamos o componente fantástico da trama mergulhada no princípio de que a incerteza e a ambiguidade do leitor representam o ponto fulcral de uma narrativa fantástica. No solo regado pelas brumas dessa incerteza germina o fantástico. ​Essa impressão se acentua, ainda, pela total ausência de referências feitas por Maria, quando recepcionada pelo marido com um vago questionamento, a qualquer um dos insólitos eventos por ela testemunhados em seu retorno. Com efeito, a mulher simplesmente presta contas de como regressou ao lar graças a uma carona oferecida e faz um comentário sucinto sobre um baile onde supostamente estivera. No leitor, todavia, o cotejo de tais informações com o relato do narrador planta a dúvida sobre o caráter sobrenatural dos acontecimentos descritos no início da narrativa. Teria Maria deliberadamente urdido as omissões e inverdades ditas na conversa com o marido, talvez a fim de preservar-se da desconfiança de um companheiro que não veria em sua experiência sobrenatural nada além de sinais de adultério ou insanidade? Ou o misterioso companheiro e as visões da estação fantasma não passaram de imagens sonhadas pela mulher no banco do automóvel que lhe deixou em casa após um baile? ​ Outro ponto que quero destacar é a apresentação que Pessoa faz de sua personagem, o diabo. Ele nos apresenta para além dessa figura fantástica mostrando um diabo-poeta, uma estrela da manhã, um ser lunar e saturnino, podendo assim ter essa liberdade criativa de tecer diálogos extremamente filosóficos, quase metafísicos, com a outra personagem, Maria, a grávida. E pairou-me uma dúvida pertinente: o poeta é um melancólico diabólico ou um diabo melancólico? Perceba que o meu questionamento dar-se sobre a figura de Pessoa, e não da personagem. Por conhecer um pouco mais a literatura pessoana, acabei mergulhado dentro dessa confusão de autor e obra. ​ Um dos melhores parágrafos do conto é quando o diabo, em um diálogo que é quase um monólogo, desabafa com Maria, as incoerências que tem recebido, com o passar dos anos, em toda a literatura ocidental. O diabo só deseja ser compreendido. E o mais interessante aqui, é que a interlocutora sequer desconfia que esteja diante do diabo, no qual ele, ao que eu entendi, discorre sobre a sua dor de existir para o filho de Maria. Ele não conversa somente com a grávida, mas também com o filho dela. ​O diabo pessoano é particularmente triste carregando um humor melancólico com uma representação demonológica, segundo o ponto de vista cristã derivado das ideias aristotélicas, e o ponto de vista renascentista, que radicalizou a doutrina do gênio, o temor a Saturno. Da doutrina dos temperamentos de escola de Salerno que toma o melancólico como invejoso, triste, avaro, ganancioso, infiel, medroso e de cor terrosa soma-se o poder iluminador da imaginação, da criação e da ironia. ​O conto carrega marcas de torpor, de um vazio entre ócio e lazer e as contradições oriundas da modernidade. A personagem está relacionada ao desejo ser e estar incompleto, um sentimento muito forte do século XX. Aqui nos deparamos com a face obscura de Pessoa, o sentimento trágico da vida. Não à toa, a metáfora do diabo em um diálogo filosófico com uma grávida, o desenho perfeito entre a morte e a vida, o fim e o começo. Muito interessante não é?! ​Também se encontra reproduzida ao final da narrativa, a conversa em que Maria, ao informar como chegara a casa, omite do marido aquelas situações extraordinárias que a desconcertaram na volta de seu encontro com Satã. Na reta final do conto, não se ouve o narrador, testemunha única no conto da satânica aventura de Maria. Agora, ao término da narrativa, sobressaem-se as falas da mulher e de seu filho, vozes contrastantes que, de resto, exacerbam e corroboram as irresoluções até aqui incutidas. E para coroar com chave de ouro seu conto, Pessoa então nos mostra um diálogo entre Maria e seu filho, sim, aquele que estava em sua barriga, quando do encontro da grávida com o diabo. ​ O filho de Maria revela ter tido sonhos que remetem a todo o percurso a que a mulher fora conduzida por Satã há tantos anos. Entretanto, reconduzida àquele estranho dia pelas palavras de seu filho, Maria não dá sinais de se recordar daquela ―conversa interessantíssima que mantivera com Satã e tampouco dos cenários onde se deu o colóquio, apegando-se, antes, em sua explicação, aos mesmos fatos que relatara ao esposo quando de seu retorno naquela noite. ​O triste diabo pessoano, criador do luar e da ironia, marcado pela ascendência de Saturno talvez nos respondesse que “A Hora do Diabo” seria, assim, a do interlúdio, do interstício, entremeio, intermédio, àquela hora em que as “chamam lançam, não luz, mas sim treva visível”, como o próprio poeta nos diz pela boca filosófica do diabo.

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    Fernando António Nogueira Pessoa

    Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "<i>legado da língua portuguesa ao mundo</i>". <br> Por ter crescido na África do Sul, para onde foi aos sete anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu a ler e escrever na língua inglesa. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa dedicou-se também a traduções desse idioma. <br> Durante uma vida discreta, trabalhou em Jornalismo, em Publicidade, no Comércio, ao mesmo tempo que compunha a sua obra literária. Como poeta, desdobrou-se em diversas personagens conhecidas como heterônimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, autodenominou-se um "<i>drama em gente</i>". <br> Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática aos 47 anos, na cidade onde nasceu. Sua última frase foi escrita em Inglês: "<i>I know not what tomorrow will bring… </i>" ("Não sei o que o amanhã trará").

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    Fernando António Nogueira Pessoa