A Segunda Cinelândia Carioca -

    Talitha Ferraz

    Mórula
    2012
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9788565679046
    Português Brasileiro

    Resultado de uma pesquisa de mestrado em Comunicação e Cultura, "A segunda cinelândia carioca" aborda a relação entre o espaço urbano da Tijuca e as salas de cinema que existiram no bairro carioca. A obra resgata um período importante no desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro e serve de modelo para pesquisas futuras que possam dar conta do alcance sociocultural que o cinema conheceu no século passado. A pesquisa foi realizada entre 2007 e 2009, e conta agora, nesta segunda edição, com acréscimos feitos pela autora.

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    Pedro Paulo Machado Bastos17/04/2013Resenhou um livro
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    Conscientização quanto ao nosso papel diante das transformações sociais: enxergá-las como fatos indiscutíveis ou não?

    O que comumente se escuta entre as gerações mais antigas é a opinião de que o passado foi muito melhor do que o presente: a vida era mais fácil, a violência era menor, as crianças eram mais felizes, o ar era mais puro de se respirar, as pessoas eram menos mesquinhas, e por aí vai crescendo a lista. No que se refere à dinâmica dos espaços urbanos, o contexto brasileiro proporcionou grandes modificações ao longo dos último cinquenta anos, resultado de políticas ora segregacionistas, ora populistas; de condições econômicas ora favoráveis, ora pesarosas; e de variações comportamentais - em sentido mais amplo, sociais. Talitha Ferraz, a autora de "A Segunda Cinelândia Carioca", aproveitou este panorama de mudanças sociopolíticas como cenário de correlação aos altos-e-baixos do prestigiado pólo cinematográfico que existia no tradicional bairro carioca da Tijuca, que teve seu auge nos anos 1950/60 e sua extinção em 1999, supostamente pela modificação dos padrões comportamentais mais voltados ao consumo de lazer em shopping centers e nas questões delicadas em torno da especulação imobiliária e da violência urbana, que afugentou muitos amantes das "telonas" para locais fechados e mais seguros. Muito mais do que um livro de causas e consequências, Talitha recorre a diferentes fontes teóricas da área da Comunicação, Sociologia e Urbanismo como forma de embasamento dos fatos, visíveis aos olhos de qualquer pedestre, embora velados por motivos nem sempre muito compreensíveis fora do âmbito científico. Ao longo do trabalho, produto de uma belíssima dissertação de mestrado, apresentou conceitos como o de "espectação cinematográfica" (que inclui todas as atividades envolvidas em torno do ato de ir ao cinema, desde ver o filme ou se arrumar de determinada maneira para tal até mesmo a refeição que se faz antes ou depois por causa do filme) para explicar as variâncias comportamentais do ato de assistir filmes na Tijuca - ou melhor, na Praça Saens Peña, "ponto nodal", como ela mesmo diz, isto é, local concentrador dos cinemas. Um ponto forte do livro são os depoimentos dos entrevistados que vivenciaram a época dos cinemas no bairro, de diferentes gerações. É curioso observar como a percepção destes entrevistados se modifca não só em torno das experiências de vida, dos valores cultivados pela sociedade nos seus "momentos", mas bem como o perfil dos cinemas, no sentido arquitetônico e funcional, foi se adequando a estes panoramas sociais. Se nos tempos áureos, compreendidos pelas décadas de 40 a 60, os cinemas eram construídos no estilo dos "movie palaces" - ostentação, grandiosidade, luxo, requinte -, os cinemas da década de 70 vieram mais compactos e mais focados no sistema capitalista da coisa - lucro, modernidade, e circuito popular -, o que talvez tenha contribuído para o declínio dos cinemas de rua nas décadas seguintes e à valorização do cinema como espaço de consumo, e não igualmente um espaço de arte e reflexão. Mais do que um presente para os tijucanos - gentílico criado aos moradores da Tijuca, por serem considerados cariocas de comportamento mui peculiares, assunto abordado também por Talitha -, "A Segunda Cinelândia Carioca" propõe uma discussão sobre a vulnerabilidade do espaço urbano ante o sistema capitalista e a perda do seu caráter público - isto é, de desfrute, de congregação de pessoas - em favorecimento às dimensões privadas, em todos os seus aspectos. Mostra, além disso, o nosso próprio espelho diante de temas tão delicados e decididamente saudosos quanto às questões citadinas - principalmente bairristas. Terminei este livro com a ideia de "qual meu papel na sociedade? Assistir a todas essas transformações que de alguma forma incomodam ou aceitá-las como fatos indiscutíveis? O que me motiva a não participar destes movimentos?". É aparentemente um livro de apelo regional porém de gigante conscientização quanto à atuação individual nas cidades.

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