A crise da razão e do saber objetivo - As ondas do irracional

    Hilton Japiassú

    Letras e letras
    1996
    231 páginas
    7h 42m
    ISBN-10: 8585387637
    Português Brasileiro
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    Juliano Dourado Santana18/07/2014Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Em defesa da Ciência

    Eu não conhecia o Japiassú até reparar o seu nome em um excelente livro de metodologia científica (Fundamentos de metodologia científica, de José Koche). Como dei de cara com o livro bem ao alcance da mão na prateleira da biblioteca, levei-o pra casa. Bem, o tema da (suposta) crise da razão ganhou a minha atenção anos atrás. O livro do brasileiro Sérgio Paulo Rouanet, "As razões do Iluminismo" é um exemplo de leitura profícua nesse tema. Entretanto, outros dois trabalhos são preferidos por mim. Dado a clareza e profundidade com que lidam com o problema da irrupção da irracionalidade e negação da tradição iluminista, "O mundo assombrado pelos demônios" e "Como a picaretagem conquistou o mundo" não poderiam deixar de brilhar na minha estante entre os meus livros prediletos! Curioso e ansioso, pus-me a ler o Japiassú. Já na introdução, encontrei referências ao Marx e também inusitadamente a Richard Dawkins e E. Wilson. Achei que as referências não estavam de acordo com o pensamento daqueles autores, e corri a conferir a bibliografia. Quem sabe eu não encontraria ali uma obra que eu até então ignorasse? Mas não. Os três referidos autores estavam ausentes da bibliografia. Provavelmente, Japiassú não os leu; e tirou conclusões apressadas e em deturpações e deformações sofridas nas mãos de terceiros. Some a isso, de imediato, o meu desgosto pela péssima edição: erros ortográficos e diagramáticos, o mais absurdo deles a deficiente margem de parágrafos! Um horror. Mas venci a leitura. Saldo? Para não dizer inútil, o livro serve como um arrolamento extenso de cientistas que descambaram para misticismo, irracionalismo e anti-ciência. Por exemplo, o físico Brian Josephson sustenta que teríamos, ao lado de nossos corpos físicos, um corpo astral. Ou Jean Charon que insistiu em demonstrar que o espírito é uma propriedade da matéria, especificamente dos prótons, nêutrons e elétrons (p. 142-143). Japiassú não percebe: não importa o que o físico X ou Z acreditam! Importa apenas o que eles submeteram ao método científico! Não é porque seja um cientista que terá a chave para todos os mistérios do Universo e da nossa existência! Um ponto essencial, o verdadeiro problema ao qual deveríamos nos lançar seria: por que até mesmo cientistas familiarizados com o método científico aferram-se a descaminhos da razão? Ou ainda noutros termos: por que esoterismo, astrologia, horóscopo, cartomância e afins têm tantos adeptos? Por que alguns pessoas abrem mão da razão em favor daquilo que não compreendem, aliás, abrem mão justamente da compreensibilidade? Japiassú se desvia destas questões primordiais. Não as responde e formula-as tardiamente. Quem chegou até aqui na leitura dessa resenha, provavelmente se interessará por "Como a picaretagem conquistou o mundo", pois seu autor vai justamente se debruçar sobre tais questões. Outro ponto a notar são as referências teóricas de que se utiliza Hilton Japiassú. Podemos resumir a corrente teórica em que se apoia sob o epíteto de 'pós-modernista'. Ora, os cientistas sociais em geral, sobretudo os franceses (ou os de outras nacionalidades que lhes imitam), os que se auto-intitulam pós-modernistas são extremamente carentes de teoria. Pretendem-se cientistas. Ah, mas que desfavor não fazem! Ignoram até mesmo que seja um método científico. E danam-se a escrever parvoices deficientes de metodologia! Allan Sokal já mostrou-nos o embuste, a impostura e a deficiência metodológica sobre a qual se assentam a maior parte dos livros relativistas pós-modernos que pretendem desbancar a razão. Já bem adiantada a leitura, num surto de lucidez, é que o autor vai finalmente pôr os pingos nos 'i's. Faz uma defesa de um parágrafo em favor da ciência na página 189 e depois a frase que vale mais que todo o resto do livro: "Devemos exercer continuamente uma vigilância e uma crítica, na ciência, não contra ela". (P. 190) Ora, a Ciência não é um corpo coeso, não é um sistema fechado, não nos traz respostas últimas, não fabrica verdades, não prescreve (mas descreve) e não nos desvenda todos os mistérios do Universo. Pretender que ela seja tudo isso é nunca tê-la compreendido. Antes, é um sistema aberto; propõe-se diferentes questões a depender sobretudo do contexto em que está inserida; e não postula verdades: ao contrário, é um discurso de falsificação de outros discursos, quando incongruentes com as evidências. A ciência, ou melhor, o conjunto de atividades humanas que visam uma crítica do conhecimento tem apenas um denominador comum: o Método Científico. Ignorá-lo é abandonar o mais caro e valioso produto da experiência humana.

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