O guarda do museu, novo romance do autor canadense Howard Norman, desperta atenção já na primeira frase: "o quadro que roubei para Imogen Linny, Judia numa rua em Amsterdã, chegou ao Glace Museum, aqui em Halifax, no dia 5 de setembro de 1938". Narrado em primeira pessoa, com algumas voltas ao passado, e precisão de detalhes, datas e até horários, o livro é um mergulho sutil na alma de um jovem, aparentemente comum, mas que tem muito de especial. Aos poucos a vida sem maiores atrativos de Defoe Russet, o guarda do museu do título e narrador da história, vai-se revelando e ganhando contornos cada vez mais dramáticos. Aparentemente frio e um tanto abobalhado, Defoe é na verdade surpreendente. À medida que se avança na leitura, fica-se íntimo dele, de uma maneira que só os grandes heróis da literatura permitem ao leitor — um Julien Sorel, de O vermelho e o negro, por exemplo.Outro personagem impagável é o bêbado fanfarrão Edward Russet, o tio de Defoe que, depois da morte dos pais do sobrinho num acidente com um zepelim, consegue-lhe o emprego no museu, onde também trabalha — ou finge trabalhar, pois está mais interessado em jogar cartas a dinheiro e contar detalhes de sua atribulada vida sexual. Imogen Linny é a namorada, zeladora de um pequeno cemitério judeu e perita em jogos eróticos, para quem Defoe resolve roubar o quadro.Judia numa rua de Amsterdã, em exposição no Glace Museum, fora pintado em 1931 por Joop Heijman. Mostra a judia do título caminhando em algum velho bairro da cidade, empurrando uma bicicleta. À esquerda do observador, vê-se a sólida fachada de tijolos de uma loja. Ao olhar com atenção para o rosto da mulher, chegando o mais perto do quadro quanto possível sem tocá-lo, Defoe achou que ele mostrava uma "tristeza desesperada". Tinha que fazer alguma coisa a respeito.
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