Meu primeiro contato com Elmore Leonard foi Chamariz, que tentei ler há muitos anos, mas acabei abandonando. Depois de ler uma inspiradora entrevista do autor no jornal O Globo, fiquei curioso para tentar novamente, e acabei tendo uma agradável surpresa com Um Homem Destemido (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2013/05/um-homem-destemido-elmore-leonard.html). Tempos depois tive outra boa experiência ao ler um conto de Leonard na antologia Noir Americano (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2019/05/noir-americano-peter-haining-org.html). E agora aconteceu o meu melhor encontro com esse autor, que é considerado um mestre do diálogo, e não sem motivo, como é bem demonstrado nesse Bandidos.
A trama é para lá de mirabolante: Jack Delaney, ex-modelo fotográfico e ex-presidiário, atualmente trabalhando como assistente de papa-defuntos, acaba se envolvendo com a freira Lucy Nichols, que cuidava de um leprosário na Nicarágua sandinista. Esse é o mote para uma história policial do tipo plano para um golpe, do qual tivemos um bom exemplo contemporâneo na ótima série espanhola La Casa de Papel. O diferencial da história de Elmore Leonard é que os bandidos bons se juntam para roubar os bandidos maus, o que gera todo tipo de questionamentos éticos e filosóficos entre personagens para lá de bizarros. Claro que a graça de toda história do tipo plano para um golpe é que, assim como na vida real, muitas surpresas acabam atrapalhando o mais meticuloso planejamento...
E o que faz de Elmore Leonard um mestre do diálogo? Realmente as falas de seus personagens são escritas com muita vivacidade, com ótimas tiradas e boas doses de personalidade. Mas penso que o recurso mais interessante utilizado por Leonard é omitir trechos da narrativa e deixá-los subentendidos nos diálogos. Não me lembro de ter visto esse truque sendo aplicado com tanta habilidade: pela reação de um dos personagens, expressada em suas falas, adivinhamos algo que está acontecendo na história, mas que não chega a ser explicitado no texto. O resultado faz a história ganhar vida e dinamismo.
Lamento não ter tomado nota dos trechos em que esse recurso foi utilizado. Como é algo bem sutil, não adiantou folhear as páginas a esmo, procurando encontrar algum bom exemplo dessa prática. Bom, ao menos anotei algumas falas bem expressivas, como o trecho em que a irmã Lucy, contando a história de São Francisco de Assis, tenta explicar a Jack que não é tão fácil assim se tornar um santo:
Se você tem consciência de que está buscando, Jack, não tem a menor chance.
A trama é permeada por muitas críticas sociais, como por exemplo:
Com a sua permissão, irmã, considere um povo criado para acreditar que está certo explodir as pernas de uma mulher por uma causa justa, mas que é um pecado mortal abri-las.
Os escritórios vivem cheios de pessoas fazendo coisas que, se não fossem feitas, ninguém notaria a diferença.
Espero ter em breve outra aula de diálogos com o mestre Elmore Leonard!
https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2023/07/bandidos-bons-x-bandidos-maus-um-plano.html