Peguei esse livro na biblioteca da facul. Queria algo introdutório, mas não raso demais sobre psicanálise, e esse caiu como uma luva. Vou ser sincera, amores: num primeiro momento, achei que a autora só queria um livro para militâncias, desses que forçam o discurso. Mas depois do primeiro capítulo percebi que as pautas que ela traz são muito bem fundamentadas.
Gostei muito da forma como ela trabalha com os textos originais de Freud e também com autores relacionados, como Lacan e Melanie Klein. É o tipo de autora que mostra a teoria e a prova ao mesmo tempo, com segurança e clareza. Ela não tem medo de citar e reinterpretar, o que dá ao livro uma força teórica e o afasta de leituras superficiais.
Mas, sendo honesta, se você não sabe nada de psicanálise, não recomendo começar por esse. Apesar de a autora explicar alguns conceitos de forma acessível, é importante ter uma base mínima. Não basta apenas saber quem são Freud e Lacan; é essencial conhecer noções como inconsciente, pulsão, complexo de Édipo e o conceito de falta. Esses pontos tornam a leitura mais profunda.
Foi um livro que ampliou o que eu já sabia e me trouxe vários ensinamentos valiosos. O capítulo sobre o desenvolvimento da criança me emocionou. Além de ser bem construído, ele toca uma fase muito sensível da vida humana, a infância. A autora descreve, com delicadeza e rigor, como o desejo e a identidade começam a se formar antes mesmo da fala. Isso dialoga diretamente com as ideias de Freud em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) e com o conceito lacaniano de “estádio do espelho”, em que a criança reconhece a própria imagem e começa a construir o eu.
Senti, porém, que o final poderia ter sido mais bem fechado. A autora inicia um raciocínio interessante, mas parece encerrar de forma apressada, como se o livro terminasse antes de concluir a ideia. Faltou um fechamento mais firme para amarrar as reflexões sobre o feminino e a falta, temas centrais da psicanálise e da própria experiência humana.
Mesmo assim, recomendo a leitura. Antes de mergulhar nela, vale a pena dar uma revisada nos conceitos básicos de Freud e Lacan, porque isso torna tudo mais claro e proveitoso.
O que mais me marcou foi compreender como somos seres mutáveis e, de certo modo, inexplicáveis, principalmente nós, mulheres. Dividimo-nos em milhares de fragmentos, e não há erro nisso. Estamos sempre buscando uma completude que talvez nunca exista. É justamente a falta, como diria Lacan, que nos torna tão humanos.