Esse livro, dos 3 que li do Eça de Queiroz (este, A Relíquia e A ilustre casa de Ramires), foi o que achei mais fraco. Mas sei que isso acontece muito por minha culpa. Explico.
Assim como A ilustre casa de Ramires, A cidade e as Serras pertence a última fase da escrita do Eça de Queiroz. Nessa fase ele já não era mais tão crítico a sociedade portuguesa, há quem diga que isso aconteceu porque se casou e o coração do homem amoleceu. Para olhos mais desatentos, pode até achar que ele fez as pazes com Portugal nesse livro. Eu discordo!
Aqui temos um crítico perspicaz sobre o avanço tecnológico nas cidades e como isso esatava causando mais mal do que bem as pessoas. Curioso, não?! Mais de 100 anos e o ser humano continua sofrendo as consequências maléficas das suas proprias criações. No entato, me parece que, apesar de ele usar Paris como exemplo de cidade grande, em vez de Lisboa, e usar Tormes (cidadezinha em Portugal) para representar as serras, não é por se reconciliar com Portugal, mas sim pra explicar que em qualquer lugar do mundo, até na mais bela das grandes cidades, há problemas.
O ponto que me faz pensar que a culpa é minha por não ter achado esse livro tão bom é a minha falta de referência. Eça neste livro traz inúmeras referências, são tantas que muitas eu consegui pegar, outras tenho certeza que me deixei passar. Por isso, às vezes da impressão de estar lendo coisas "sem sentido" quando na verdade tem, sim, muito sentido, mas eu não fui capaz de compreender. Parece que aquelas descrições longas, típicas do Eça são só "encheção de linguiça", mas há muita ironia ali, o que torna o texto uma delícia quando eu consegui entender.
O ponto alto do livro, para mim, é justamente esse. Com uma escrita leve (para os padrões dele) e aparentemente despretenciosa, nessa fase da vida a escrita dele beira a perfeição. O domínio sobre a língua portuguesa é um show a parte, mas isso também acaba complicando um pouquinho. Não tanto quanto em A ilustre casa de Ramires, mas ainda assim haverá palavras que desconhecemos e elas querem dizer exatamente o que Eça quer nos dizer. Os trocadilhos também são maravilhosos.
Em fim, é uma obra atemporal, na verdade seria até contemporânea se não fosse a descrição das tecnologias e costumes da época. Encontramos tudo que nos é semelhante nos dias de hoje nas grandes cidades: tecnologia exagerada, pseudointelectuais, banalização do corpo da mulher, tédio como ponto central da vida de muita gente, sujeira e criminalidade. Também há belezas, mas a questão é: vale a pena?