Sabe o que vem no final de um belo conto de fadas? Sim, aquela expressão “... e foram felizes para sempre”, mas e depois do “felizes para sempre” o que vem? Isso mesmo: o lugar da bagunça!
Christina Hopkinson escreveu um livro divertido, inteligente e com críticas verdadeiras ao casamento moderno sob a perspectiva feminina de Mary, a narradora personagem mais hilária, estressada e engraçada que já encontrei nos últimos tempos!
O enredo é simples e a narrativa em primeira pessoa enriqueceu a personagem Mary que é muito, muito honesta em seus pensamentos [honesta até demais]. Mary tem 35 anos é casada com Joel e tem dois filhos: Rufus e Gabe. Trabalha meio expediente fora e o resto do dia fica cuidando dos filhos e tentando por ordem, ou melhor, arrumar a bagunça em sua casa, que nunca está arrumada afinal, ela é a única para arrumar enquanto há três homens para sujar e um em particular parece que dá mais trabalho: o seu marido.
Joel é um homem bagunçado, relaxado e despreocupado com tudo, sente-se feliz pelas pequenas coisas e não se importa em largar o casaco no sofá, deixar a xícara de chá por dias e dias na mesa ou tirar as loucas da máquina. Joel é um cara estupendamente bagunçado, mas um ótimo pai. Constantemente no livro os demais personagens ficavam repetindo para Mary o quanto ela tem sorte de ter casado com o Joel, pois ele é maravilhoso. Mas Mary não pensa assim!
Mary, já completamente fora de si, com a autoestima baixa e altamente pressionada por ver que as casas de suas amigas estão sempre limpas e arrumadas decide criar A Lista para colocar todos os defeitos de seu marido Joel na ponta do lápis, ou melhor, planilha do Excel, e A Lista é imensa e todos os dias cresce as infrações e Joel perde pontos, no final de um determinado prazo ela decidiria se continuaria com o casamento ou não.
Desde o começo do livro eu fiquei encantada com a narrativa e apesar de ter considerado a Mary muito rabugenta eu gostei dela, realmente gostei dela! Ela é o tipo de personagem imperfeita, cujas imperfeições são altamente identificáveis com imperfeições de todos nós. Quem em um momento de stress não descontou a raiva no marido, nos filhos ou amigos?
O Lugar da Bagunça é uma das narrativas a respeito do relacionamento em casal mais fieis que já encontrei na literatura. Aponta defeitos [muitos], mas também qualidades e faz-nos refletir sobre um casamento e as relações cotidianas. Às vezes, as aparências enganam muito, ou melhor, não enganam: nós é que nos deixamos enganar.
Durante a leitura um personagem que me chamou bastante atenção foi Becky, a melhor amiga lésbica de Mary, que vive um relacionamento também complicado com sua mulher Cara. Entretanto, ao contrário de Mary, Becky tenta agir com racionalidade, mas as coisas não são fáceis e isso prova que não importa se a relação é heterossexual ou homossexual, todo relacionamento tem seus problemas, seus altos e baixos.
Este livro tem ironia, cenas picantes [homo e hétero], segredos e mistério, tudo na medida certa. É encantador pegar uma narrativa como essa que além de entreter, faz refletir e tentar por ordem na bagunça maior que, literalmente, não é a da casa, mas a do interior de cada um dos personagens/nós. Não é autoajuda, mas é um livro que pode servir de exemplo para salvar muita relação ou para que as pessoas encarem uma relação com uma visão real e não romanceada. Viver com outra pessoa não é fácil e cada um tem sua bagunça particular, imagina quando as bagunças se juntam?
É impossível chegar ao final desta leitura e não indicá-la, ela é simplesmente fantástica e mostra que a realidade pode não ser um conto de fadas, mas pode chegar bem próximo a um, ou se tornar um verdadeiro inferno! Porém, não indico esse livro para pessoas com menos de 15 anos, tem cenas beeeeeem exóticas em suas páginas.
Camila Márcia
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