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    As Espirais de Outubro -

    Whisner Fraga

    Nankin Editorial
    2007
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788577510054
    Português Brasileiro
    4.3
    3 avaliações
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    OUTUBRO DA DESESPERANÇA Uma velha escritora, “com setenta e dois longos anos pesando em minhas pernas varicosas”, escreve um diário íntimo durante treze dias de outubro (de 2005? — é o que parece...). Ela está no apartamento 1402 (14. andar) de um prédio num terreno em Botafogo, no Rio de Janeiro. Seu escrito trabalha com dois registros: o primeiro, que se passa nesse apartamento, é predominantemente memorialístico, da memória antiga, mas não só. O segundo, denominado “Na cidade”, por sua vez, trabalha com o presente, com a memória imediata, registrando andanças e observações de um olhar idoso e ao mesmo tempo nosso contemporâneo. Nos dois registros diversas coisas, objetos, esperanças, expectativas, ilusões, acontecimentos, impressões, personagens, sentimentos e pequenos delírios se cruzam. Porém não propriamente para se esclarecer ou iluminar mutuamente, como talvez esperasse um leitor contrafeito, senão que para “engrossar o caldo”, ou dar maior densidade à matéria narrada. A simpática velhinha espera para breve, antes que seja definitivamente devorada pelo câncer que a rói, o anúncio do prêmio Nobel de Literatura, que ela, com certeza, desta vez, ganhará. É de lembrar que o dito prêmio em geral costuma ser anunciado no mês de outubro de cada ano. Não sei se maliciosamente ou não, esse diário talvez pudesse ser escrito, no Brasil, por escritoras como Hilda Hilst, ou Clarice Lispector, ou mesmo Lygia Fagundes Telles, sem que vá nisso nenhum desdouro a elas, aliás, mera dedução deste leitor, visto que esses nomes não são referidos na narrativa. A autora do diário chama-se Aila e como não consta sua existência nos meios literários nacionais ou alhures, o prêmio Nobel esperado funciona como parte de um delírio, no qual literatura, dinheiro, mercadoria e prestígio se cruzam num jogo de ilusões e frustrações. Por isso, o texto é ao mesmo tempo irônico, inconformado, desafortunado, caricato e delirante. A esperança e a frustração se corroem mutuamente. As outras personagens são sombras projetivas da narradora, desde a juventude até a velhice abandonada. Mas o Brasil também percorre a memória da narradora em momentos cruciais do século XX e se mostra na sua irrelevância, tanto pela notação crítica quando pela indiferença e o descuido para com a velhice. No final o leitor terá uma surpresa, mas essa não se conta, já que é surpresa e convém chegar ao final do livro para encontrá-la. Valentim Facioli.

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