Quem tem rudimentos de italiano costuma se irritar com os erros idiomáticos nos cardápios de restaurantes de culinária peninsular. Mas incomodada igualmente o uso indiscriminado de termos como cantina, osteria, trattoria ou pizzaria, pois eles guardam nuances insuspeitadas sobre as tenções entre o mundo urbano e rural na Itália.
É esse o tema de "Delizia! - A história dos Italianos e Sua Comida", de John Dickie. Autor de "Casa Nostra", sobre a máfia siciliana, o escritor e pesquisador britânico faz um percurso que remonta à Palermo de 1154 (onde os muçulmanos introduzem a "itryya", um precursor da massa seca de trigo duro) e chega à Turim de 2006, quando acontece uma conferência do movimento Slow Food (reação à globalização fast food).
Há capítulos dedicados à alta gastronomia da Roma renascentista e à comida popular de Bolonha barraco - e essa periodização vinculada a cidades constitui a tese central dessa instigante crônica cultural.
A tese de Dickie. que percorre de maneira convincente cada capítulo, é a que "a culinária é uma culinária urbana", na contramão da idealização de suas raízes camponesas. Superficialmente, a prova disso está nos nomes de pratos associados a cidades, como bisteca à fiorentina ou pesto genovês. Mas "Delizia!" vai bem além da pesquisa culinária.
Dickie não demora em lendas sobre a origem chinesa do macarrão ou na disputa entre França e Itália pela primazia da alta gastronomia. Seu foco é a ideia de civilização que se formou graças à rede comercial mediterrânea, à etiqueta das cortes, à erudição dos humanistas italianos e a doses generosas de violência política.
Mestres do fogão como os renascentistas Martino de Rossi e Bartolomeo Scappi são sua contrapartida mais hedonista, amalgamando produtos pobres (como as vísceras) a técnicas desenvolvidas pelas elites.
A descrição do conclave papal de 1549 é um pequeno romance de fasuto, conspiração e banquetes. E a recuperação da culinária rústica, "contadina", por Mussoloni, é apenas uma fábula ideológica que confirma a vocação italiana para civilidade urbana. Afinal, nem Berlusconi, epígono de "Duce", recusa os prazeres da incomparável "cucina" italiana.