A continuação da epopeia digressiva do maior escritor espanhol vivo da atualidade é, em resumo, um mal necessário. O extenuante segundo tomo de Seu rosto amanhã é uma espécie de ponte para o grande - e bota grande nisso, pois o próximo volume tem mais de 600 páginas!! - fechamento do maior romance filosófico de Marías.
O mundo pertence às dúvidas, todas as pessoas inteligentes sabem disso. Às certezas, infelizmente, só resta a indiferença. Aqui nosso narrador, o reflexivo Jacques (Jaime, Jacobo, Jack) Deza, vai dar seu pitaco sobre tudo: memória, tempo, guerra, violência e morte. Não há limites para as digressões em Dança e sonho, espécie de subtítulo que este livro leva. Além disso, se no primeiro volume os silêncios eram impossíveis, agora a dúvida assume um tom shakespeariano: calar ou não se calar, eis a questão.
A experiência que suscita a incerteza do parágrafo anterior em Jacques Deza dura neste livro praticamente 150 páginas até chegar ao seu clímax - que nem é tão clímax assim. Boa parte da ação se passa em uma boate, mais especificamente nos banheiros dela, e a maioria das indagações do narrador acontecem em retrospecto e de maneira introspectiva. É nesse momento que somos levados a reflexões sobre menstruação (descubram lendo), banheiros para deficientes (levemente desnecessárias), drogas (cocaína, para ser mais exato) e botox (sim, isso mesmo, que apesar de maçante é interessante). São momentos tarantinescos ao seu modo, pois o que Marías leva mais de 100 intermináveis páginas para resolver, Quentin Tarantino teria feito em 15 laudas repletas de diálogos - o que raramente acontece aqui.
Em outras 100 páginas, na transição do miolo para o fim, voltamos ao que o romance pode oferecer de melhor: um olhar sobre o passado. É nessa parte, em que Jacques Deza conversa com seu pai sobre a fronteira invisível que existe entre ver e relatar algo, do perigo iminente que todos corremos ao saber de qualquer coisa, que Marías brilha. Sob o pano de fundo da ditadura franquista na Espanha, o autor, que pratica uma espécie de autoficção nessas passagens (o pai de Marías, o filósofo Julián Marías, principal discípulo de José Ortega y Gasset, foi delatado, sem provas, por um amigo próximo no regime de Franco assim como o pai do narrador), mostra sua importância na literatura contemporânea.
Outro ponto que ganha força aqui é a questão da linguagem. Marías, que é filólogo e fala fluentemente, além de sua língua materna, inglês, italiano e francês, brinca com a impossibilidade de transpor com exatidão o sentido de uma palavra em outras línguas que não a nossa. A comunicação é cara para Marías, e ao decorrer das páginas nos deparamos com reflexões pertinentes sobre essas dificuldades.
O final do livro, que termina novamente com um cliffhanger, promete explorar ainda mais a personalidade complicada de Bertram Tupra, o indecifrável chefe de passado obscuro do nosso narrador, e mesmo assim não permite aos leitores vislumbrar o que está por vir na história. E, é preciso salientar mais uma vez, há a ausência de uma voz feminina relevante que não seja estereotipada, pois nem a colega de Deza, a jovem Pérez Nuix, nem sua ex-esposa Luísa exercem esse papel, sendo apenas peças menores na narrativa de Marías.
O que fica evidente após o término deste livro é: não tente conhecer Javier Marías a partir do seu mais ambicioso romance. O estilo lento, paciente e às vezes impenetrável do autor pode afugentar leitores apressados. Em vez disso, é preferível começar pela obra-prima dele, o incomparável Coração tão branco ou o excelente Os enamoramentos, e ainda contar com a possibilidade de se deleitar com o ótimo Assim começa o mal, todos mais acessíveis, com cenas mais memoráveis e menos opinativos e claustrofóbicos.