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    Seu rosto amanhã - Dança e sonho

    Javier Marías

    Companhia das Letras
    2008
    360 páginas
    12h 0m
    ISBN-13: 9788535913163
    Português Brasileiro
    4.3
    33 avaliações
    Leram44Lendo1Querem177Relendo1Abandonos0Resenhas5
    Favoritos9Desejados177Avaliaram33

    Neste segundo volume da trilogia de Javier Marías, Jaime Deza separou-se de Luisa e trocou Madri por Londres, onde trabalha num grupo ligado aos serviços secretos ingleses, que tem por função analisar algumas pessoas para intuir como reagiriam diante de certas situações, com base numa observação: qual seria o rosto delas amanhã. Contar ou calar? Esse dilema, já presente na primeira parte desta trilogia, retorna em Dança e sonho, cuja narrativa está centrada na violência e no medo, que nos agridem cotidianamente. Como observa o pai do narrador, Jaime Deza, ao contar a este os horrores da guerra civil que testemunhou, ouvir o relato talvez seja pior do que presenciar o fato: a imagem do que vimos é mais fácil de apagar, mas a memória "não nos possibilita muita alteração do ouvido, do relatado". Por isso, seu pai calou por tanto tempo essas histórias: para preservar os filhos, a esposa, uma amiga, do seu horror. Jaime também testemunhou uma brutal cena de violência, que constitui a mais tensa de todas as narrativas que compõem o romance, embora temperada, como sempre, com a ironia característica da prosa de Marías. E sente-se cúmplice desta por ter ficado paralisado de medo e espanto ante a espada ameaçadora erguida por seu chefe sobre um personagem grotesco, numa noite de dança. Em sua consciência, fica martelando pelo resto daquela noite: até que ponto se pode levar a violência? Pode-se justificá-la?

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    Resenhas (5)Ver mais
    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo26/04/2021Resenhou um livro
    3 (Bom)

    O dilema

    A continuação da epopeia digressiva do maior escritor espanhol vivo da atualidade é, em resumo, um mal necessário. O extenuante segundo tomo de “Seu rosto amanh㔠é uma espécie de ponte para o grande - e bota grande nisso, pois o próximo volume tem mais de 600 páginas!! - fechamento do maior romance filosófico de Marías. O mundo pertence às dúvidas, todas as pessoas inteligentes sabem disso. Às certezas, infelizmente, só resta a indiferença. Aqui nosso narrador, o reflexivo Jacques (Jaime, Jacobo, Jack) Deza, vai dar seu pitaco sobre tudo: memória, tempo, guerra, violência e morte. Não há limites para as digressões em “Dança e sonho”, espécie de subtítulo que este livro leva. Além disso, se no primeiro volume os silêncios eram impossíveis, agora a dúvida assume um tom shakespeariano: calar ou não se calar, eis a questão. A experiência que suscita a incerteza do parágrafo anterior em Jacques Deza dura neste livro praticamente 150 páginas até chegar ao seu clímax - que nem é tão clímax assim. Boa parte da ação se passa em uma boate, mais especificamente nos banheiros dela, e a maioria das indagações do narrador acontecem em retrospecto e de maneira introspectiva. É nesse momento que somos levados a reflexões sobre menstruação (descubram lendo), banheiros para deficientes (levemente desnecessárias), drogas (cocaína, para ser mais exato) e botox (sim, isso mesmo, que apesar de maçante é interessante). São momentos tarantinescos ao seu modo, pois o que Marías leva mais de 100 intermináveis páginas para resolver, Quentin Tarantino teria feito em 15 laudas repletas de diálogos - o que raramente acontece aqui. Em outras 100 páginas, na transição do miolo para o fim, voltamos ao que o romance pode oferecer de melhor: um olhar sobre o passado. É nessa parte, em que Jacques Deza conversa com seu pai sobre a fronteira invisível que existe entre ver e relatar algo, do perigo iminente que todos corremos ao saber de qualquer coisa, que Marías brilha. Sob o pano de fundo da ditadura franquista na Espanha, o autor, que pratica uma espécie de autoficção nessas passagens (o pai de Marías, o filósofo Julián Marías, principal discípulo de José Ortega y Gasset, foi delatado, sem provas, por um amigo próximo no regime de Franco assim como o pai do narrador), mostra sua importância na literatura contemporânea. Outro ponto que ganha força aqui é a questão da linguagem. Marías, que é filólogo e fala fluentemente, além de sua língua materna, inglês, italiano e francês, brinca com a impossibilidade de transpor com exatidão o sentido de uma palavra em outras línguas que não a nossa. A comunicação é cara para Marías, e ao decorrer das páginas nos deparamos com reflexões pertinentes sobre essas dificuldades. O final do livro, que termina novamente com um cliffhanger, promete explorar ainda mais a personalidade complicada de Bertram Tupra, o indecifrável chefe de passado obscuro do nosso narrador, e mesmo assim não permite aos leitores vislumbrar o que está por vir na história. E, é preciso salientar mais uma vez, há a ausência de uma voz feminina relevante que não seja estereotipada, pois nem a colega de Deza, a jovem Pérez Nuix, nem sua ex-esposa Luísa exercem esse papel, sendo apenas peças menores na narrativa de Marías. O que fica evidente após o término deste livro é: não tente conhecer Javier Marías a partir do seu mais ambicioso romance. O estilo lento, paciente e às vezes impenetrável do autor pode afugentar leitores apressados. Em vez disso, é preferível começar pela obra-prima dele, o incomparável “Coração tão branco” ou o excelente “Os enamoramentos”, e ainda contar com a possibilidade de se deleitar com o ótimo “Assim começa o mal”, todos mais acessíveis, com cenas mais memoráveis e menos opinativos e claustrofóbicos.

    52 curtidas

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    Avaliações

    4.3 / 33
    • 5 estrelas52%
    • 4 estrelas30%
    • 3 estrelas12%
    • 2 estrelas3%
    • 1 estrelas3%
    Javier Marías Franco profile picture

    Javier Marías Franco

    Escritor, tradutor e editor espanhol. Nasceu em Madrid em 20 de setembro de 1951 e faleceu em 11 de setembro de 2022 devido a uma pneumonia bilateral em decorrência da covid-19. Considerado o principal escritor espanhol da segunda metade do século XX e início do século XXI, ocupava a cadeira R da Real Academia Española (RAE) desde 2008. Formado em Filosofia e Letras, com especialização em Filologia Inglesa, pela Universidade Complutense de Madrid, foi professor de Literatura Espanhola e Teoria da Tradução na Universidade de Oxford (1983-1985), no Wellesley College de Massachusetts (1984) e na Universidade Complutense de Madrid (1986-1990). É autor de contos, ensaios, crônicas e 16 romances, entre eles "Coração tão branco" (1992), "Amanhã, na batalha, pensa em mim" (1994), "Seu rosto amanhã" (2002-2007), "Os enamoramentos" (2011), "Assim começa o mal" (2014), "Berta Isla" (2017) e "Tomás Nevinson" (2021). Era Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras da França.

    88 Livros
    59 Seguidores

    Javier Marías Franco