Tese de doutorado da professora Lília Silvestre Chaves, Mário Faustino, uma biografia (Secult/IAP/APL). Em recente palestra, Benedito Nunes disse existir um tempo necessário para que a obra de um escritor seja devidamente apreciada. Pode haver, em alguns casos, um entusiasmo inicial que não se confirma depois. No caso do poeta e crítico Mário Faustino, o tempo tem ampliado as possibilidades de apreciação de sua obra e confirmado a genialidade de seus versos. Mário Faustino sobrevive ao tempo. E parece um movimento natural que desviemos um pouco o nosso olhar, fixado em sua obra, para conhecer o homem que morreu muito jovem. "Vive-se, também, em palavras", nos diz Lília. "Poesia e vida minhas deverão seguir paralelas, até que a morte nos separe...", predizia o poeta, que desapareceu em 1962, aos 32 anos, num desastre de avião. A obra segue vivendo e trouxe, cristalizada, a vida, conferindo-lhe novos contornos na memória que suscita. Benedito Nunes destaca que essa biografia tem a virtude de atar as conexões do individual com o social, e destas com “o todo da vida do autor e com os outros inúmeros fios que desta vida passaram a constituir a existência trans-histórica de sua obra poética”. Lília dissolve os limites antes traçados entre obra literária e vida pessoal. Mostra-nos as semelhanças entre texto e vida. Para Benedito, que prefacia o livro, “a vida se tornou poesia, a biografia confundida na grafia do poema”. Lilia Silvetre Chaves refaz o roteiro afetivo de Mário Faustino na cidade de Belém. Vai à casa dos amigos; ouve longos relatos; lê cartas, bilhetes, dedicatórias; e olha seus álbuns de fotografias. Na narrativa muito cuidadosa que Lília constrói, e que aqui se vale muito das cartas e das crônicas diárias, desfrutamos do olhar do Poeta sobre a Belém daqueles dias, principalmente do calor de sua amizade. Um tempo de fazer amigos, que levaria para o resto da vida, aprendizado e grande crescimento pessoal. A autora acompanha cronologicamente essas amizades e seus desenlaces pelas cartas. Correspondência que com alguns durou enquanto Mário viveu. Também pelas cartas Lilia chega ao conhecimento das reflexões que Mário fazia sobre a criação poética e sobre sua própria poesia. Numa delas, declara que tinha intenção de fazer, com os poemas-fragmentos, uma espécie de montagem “à maneira cinematográfica” que iria organizar a sua poesia e a sua vida. Lilia parece aquiescer a esse desejo e coloca a serviço dessa idéia sua erudição e habilidades de fina pensadora e escritora. Vai elaborando, com milagrosas mãos, essa grande “colagem” que organiza, harmoniza e aproxima vida e poesia, “uma refletindo, ou melhor, ‘reflexando’, a outra”. De maneira consistente e sábia, Lilia empreende sua escrita. Biógrafo e biografado “em tempo de poesia” é o que encontramos ao ler Mário Faustino, uma biografia”. TextO: Andréa Sanjad
