Revista de história da Biblioteca Nacional - Guerrilheiros-Armas contra a ditadura

    vários

    Sociedade de amigos da biblioteca nacional
    2013
    98 páginas
    3h 16m
    ISBN-8: 18084001
    Português Brasileiro

    Buscávamos um rosto, a expressão da convicção que teria levado jovens às armas contra a ditadura. Mas nem sempre a imagem mais nítida é aquela que causa desconforto, e estabelece com o leitor o início de uma longa conversa. Na capa desta edição optamos pelo retrato anônimo de uma relação de forças que escapa à memória social brasileira, ainda incapaz de reconhecer na história da esquerda revolucionária uma parte de si. Ao fundo da imagem, militares um tanto disformes ilustram a dimensão (des)humana que atingiu a repressão no Brasil, especialmente após 1968, quando se tornou legítima a guerra preventiva em nome da uniformidade de valores morais, de comportamentos e formas de pensamento, acompanhados de perto pelos serviços de censura e de perseguição políticas. A despersonalização dos agentes do Estado mantém a coerência do termo genérico “governo militar” no qual se diluem 20 anos de ditadura, cinco presidentes e uma junta provisória, diferentes modalidades de violência, de apoio da sociedade civil e da institucionalização de um legado cujo exemplo maior é a lei de anistia de 1979. A maioria representada na imagem, composta por militares, ao qual se opõe apenas um sujeito, denota a desigualdade entre a repressão e a revolução – ou a resistência, como defendem hoje alguns sobreviventes. A vitória sem tiros do golpe em 1964 e as derrotas impostas às guerrilhas, seguidas pelo assassinato de suas lideranças, são demonstrações factuais da desproporção que caracteriza toda guerra de guerrilha. E por fim, a transição pactuada, sem a condenação moral e jurídica dos crimes que ficavam para trás, garantiu aos homens da ditadura o poder de narrar com quase exclusividade aqueles acontecimentos, transferindo a desigualdade das armas também para o campo das “ideias”. No primeiro plano da imagem está o guerrilheiro sem identidade, sem uma expressão subjetiva que possa projetá-lo como figura acabada e homogênea. Além da espingarda, ele carrega uma utopia difusa e pretensamente revolucionária, difícil de definir sob as referências predominantes do homem atual. Jovem, de calça jeans e cigarro na boca, tornou-se menos conhecido pela forma de pensar, que o levou às armas, do que pela estética consumível de algo como uma “cultura alternativa”. Ele não está só porque representado como vítima na imagem, mas, talvez, porque “toda revolução tem sua linha burra”, como disse enraivecido o guerrilheiro Carlos Marighella em 1969. De forma geral, o ilustrador Matheus Vigliar conseguiu colocar em perspectiva o confronto entre homens com sonhos e planos radicalmente distintos para o futuro do Brasil – em ambos os lados, nem sempre com ideais democráticos. Este futuro passado, que nos permite à distância recompreender as diferenças ideológicas e as fronteiras mais rígidas entre a moralidade e a subversão. (Nashla Dahásé pesquisadora da Revista de História da Biblioteca Nacional).

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