Sobre a Amizade - DE AMICITIA

    Marco Túlio Cícero

    Nova alexandria
    2006
    120 páginas
    4h 0m
    ISBN-10: 8574921297
    Português Brasileiro

    "Não há bem maior do que a amizade". Esta máxima vem sendo afirmada e repetida desde a Antiguidade. Mas como saber se uma amizade é de fato autêntica? Quais parâmetros éticos e morais devem reger uma relação entre amigos? Essas e outras questões já preocupavam Marco Túlio Cícero, a tal ponto que um de seus trabalhos fundamentais foi justamente o texto Sobre a amizade, que a Editora Nova Alexandria acaba de publicar com apresentação, tradução e notas do prof. João Teodoro d'Olim Marote, da USP, ampliando a linha da editora que, desde a sua fundação, vem se dedicando à publicação, com enorme sucesso, de grandes clássicos da Antigüidade greco-latina, sempre em edições bilíngües. Escrito em 44 a.C., Sobre a amizade é um pequeno tratado no qual Cícero diz estar reproduzindo uma conversa entre Caio Fânio, Quinto Múcio Cévola e Caio Lélio, em que este último, entristecido com o falecimento de seu amigo Cipião, fala sobre a amizade. O diálogo só existe, efetivamente, em poucas passagens do texto, prevalecendo, na verdade, uma envolvente exposição de teses sobre o tema. Suas considerações iniciais versam sobre a imortalidade da alma e, nesse sentido, defende a idéia de que a amizade - que une os justos e virtuosos - sobrepuja a própria morte, uma vez que ela tem a capacidade de perpetuar a memória daqueles que se foram. Embora escrito há mais de dois mil anos, este livro permanece incrivelmente atual, exatamente por tratar das relações de amizade que estabelecemos tanto do ponto de vista mais íntimo e pessoal quanto nas relações sociais. Cícero afirma que a verdadeira amizade fundamenta-se na virtude e nos alerta para que fiquemos atentos em relação aos bajuladores, que apenas vêem na amizade uma forma de atingir objetivos utilitários e, freqüentemente, ilícitos. Cícero mostra que a corrupção na administração pública está fortemente relacionada ao estabelecimento de falsas amizades. Um ponto central de sua exposição é o estreito vínculo que deve haver entre amizade e virtude, entendida esta última como inerente à própria natureza. A virtude, desse modo, é o eixo que Cícero utiliza para questionar a tese do utilitarismo da amizade - no sentido de que esta nasceria e sobreviveria com o atendimento de conveniências mútuas - e, igualmente, sobre a questão do prazer. Colocando-se ao lado dos estóicos romanos, Cícero apresenta uma crítica corrosiva de uma visão supostamente "epicurista", disseminada popularmente. Vale assinalar que, nessa época, gregos que se autodenominavam filósofos - e que, efetivamente, caracterizavam-se mais como charlatães -, vinham a Roma oferecer à elite uma filosofia do prazer, que era, na verdade, uma justificativa para o desbragamento moral que grassava na República Romana, já em processo de decadência.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (7)Ver mais
    Lucas Wendel picture
    Lucas Wendel01/08/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Fantástico.

    De Aristóteles a C. S. Lewis, o tema da amizade vem sendo investigado pela filosofia sob as mais diferentes abordagens. E não é sem motivo: ao mesmo tempo em que a amizade é algo tido como corriqueiro, dúvidas sobre como se dá a origem do vínculo entre dois amigos, o que caracteriza uma boa amizade e como saber quando uma amizade chega ao fim são mais frequentes do que se imagina. E aqui, o filósofo romano Cícero (106 - 43 a.C) traz sua contribuição para esta discussão singular. Em uma estrutura de diálogo - que inegavelmente torna a experiência ainda mais fluida - que bebe muito da tradição platônica, o filósofo segue os passos de Aristóteles ao defender (tal qual o estagirita no livro VIII de sua "Ética a Nicômaco") que a amizade genuína só pode ser fruto da união entre duas pessoas virtuosas, resultando em uma experiência enriquecedora para a vida, que ao promover uma edificação dos envolvidos acaba por nivelá - los, além de ser uma fonte de consolo e alegrias. Mesmo assim, nem tudo são flores: o filósofo sustenta que o curso natural da vida pode fazer com que mesmo amizades que surgem da trajetória entre os virtuosos pode chegar ao fim e também é preciso ter sensibilidade para entender quando este processo acontece. Ao final, Cícero dedica algumas páginas para advertir o leitor contra o bajulador, aqui apresentado como o oposto do amigo por adotar uma natureza de inimizade em relação à verdade. Em tempos de vínculos superficiais, marcados pela conveniência, ler o filósofo romano convidando o leitor a entender que a amizade genuína nasce da semelhança entre os pares nos força a refletir sobre a qualidade de nossas amizades. Sem dúvidas, este é um livro que merece a leitura.

    10 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.8 / 84
    • 5 estrelas27%
    • 4 estrelas29%
    • 3 estrelas37%
    • 2 estrelas5%
    • 1 estrelas2%