Geralmente, eu procuro fundamentar bem as notas baixas que dou a um livro. Isso porque eu gosto muito de vocês aqui do Skoob, então daí vem essa minha consideração na hora de resenhar (assim temos sempre boas trocas!). Entretanto, ao terminar de ler A morte do pai, eu tive que admitir que gosto muito mais de mim mesma e que eu merecia me livrar deste romance o quanto antes, razão pela qual eu não vou voltar à obra para fundamentar a minha insatisfação. A partir daqui, temos mais um desabafo de uma leitora guerreira do que uma resenha propriamente dita
Basicamente, o autor decidiu publicar sua autobiografia romanceada/ficcionalizada numa série de seis livros. Simples assim: ele, Karl Ove Knausgård, é um escritor norueguês de 53 anos (quando começou a escrever a série ele deveria estar na casa dos 40 anos talvez) que sentou a bunda na cadeira e escreveu DETALHADAMENTE sua vida ainda em curso - e A morte do pai é seu livro de abertura, focado na fase da juventude. Muitos leitores e críticos têm considerado a série "genial", e foi assim que cheguei a essa desgastante leitura (a série se intitula A minha luta, uma assumida alusão ao livro homônimo de Hitler, outro ponto que não percebi!).
Pois bem. Pode a autobiografia de um homem comum, europeu e hétero, do século XXI ser interessante? Eu diria que sim! Os brevíssimos momentos em que o narrador trata da formação da sua masculinidade e sexualidade são um ponto alto. Quando ele ameaça refletir sobre sua paternidade também. O tema da morte do pai, quando FINALMENTE chega, é instigante. Mas aí vem o problema
Na prática, a obra vai por um caminho que me deixou várias vezes com cara de ué?.
Abraçando a licença poética inerente ao desabafo de uma leitora guerreira, eu dividiria o livro assim: 30% foca na questão de fazer amizades (ou não) na infância/adolescência, de uma forma bem boba e superficial; 40% foca num quase sexo, drogas e rock roll bem sem graça e circular; 30% foca na limpeza da casa da avó do protagonista (e olha que, apesar de tudo, esta parte foi a que mais gostei, mas não vou explicar pra não dar spoiler!). E tudo isso MUITO detalhado! Se o protagonista vai escutar uma música, a gente é obrigada a acompanhar desde a escolha da música, o subir de escadas para o quarto, o apertar do botão do toca fitas, parte da letra das músicas
Se o protagonista vai limpar a casa, nos vemos pensando e escolhendo o produto de limpeza com ele, sentindo o cheiro dos produtos etc etc
E daí? Pra quê? Socorro" foi minha nota mental mais frequente enquanto seguia com a leitura
É verdade que autor merece ser reconhecido por conseguir trabalhar sua escrita de forma tão detalhista e parcimoniosa, numa altura em que as sociedades correm numa velocidade descabida. O livro, de certa forma, vai contra a lógica do tal tempo líquido. Então, sim, eu (quem sou eu, mas
) reconheço algum mérito no estilo adotado por Karl Ove. Mas mais ainda merecem ser reconhecidas as bravas leitoras que têm paciência para ler tanta descrição. Não quero julgar o livro por aquilo que eu gostaria que ele tivesse sido, mas a falta de reflexões ou posicionamentos mais subjetivos e/ou filosóficos do narrador-protagonista tornaram a leitura insuportável para mim! Caiu numa descrição pela descrição, o que me impediu de ver beleza na proposta audaciosa de romancear a biografia de um homem comum do nosso século. Não é qualquer um que consegue descrever a vida da forma como o faz esse autor, mas isso não bastou para que eu me conectasse com o valor literário da obra. Poucas pessoas conseguem fazer o que ele faz, mas, para mim, isso não significa que o que ele faz é "genial", pode apenas ser único mesmo. De forma única, ele tirou minha paciência como poucos nos últimos tempos! Não sou ingênua a ponto de encarar a literatura como sinônimo de prazer, mas tampouco espero que ela signifique tortura... Olha, que dureza foi essa leitura!
Pode ser que a leitura da série toda dê novas chaves de interpretação e valoração, mas eu não vou pagar pra ver. E, claro, deve acontecer com vocês também, de não gostarem de um livro da moda e pensarem: será que eu não sou culta suficiente para perceber a graça disso aqui?. Pode ser também, mas o fato é que eu nunca tive a pretensão de ser culta, então se o problema for este, eu deixo a leitura para os universitários. E, por fim, vocês se lembram que isso aqui é mais um desabafo do que uma resenha? Pois bem, talvez a gente possa apagar todas as linhas acima e deixar apenas a frase que segue: gosto é gosto, né?.