A tetralogia José e seus irmãos foi considerada pelo autor como sua obra-prima. Todavia, escrita entre 1933 e 1943, abarcou o período da 2ª Guerra Mundial e foi ofuscada por esse evento catastrófico.
Em pese não ser, assim, a obra mais conhecida de Thomas Mann, penso que este foi um dos melhores livros que li na vida. O volume 1 da tetralogia traz as duas primeiras histórias: As Histórias de Jacó e O Jovem José. Os dois outros volumes (3 e 4) trazem, respectivamente o título José no Egito e José, o Provedor.
A história milenar é bastante conhecida, mas nas mãos do autor ganha contornos épicos. Ao narrar a história de Jacó, suas esposas e seus filhos, Thomas Mann nos entrega personagens humanos, embora míticos e arquetípicos, em episódios que oscilam entre o bem e o mal. Ninguém é totalmente bom ou mau. José não é um anjo e seus irmãos não são demônios. Ao construir a narrativa, vemos como as ações de todas as personagens culminaram no acontecimento sobejamente conhecido de José atirado ao fundo de uma cisterna.
Demonstrando um profundo conhecimento simbólico e esotérico, o autor desfila nas páginas desse livro diversas mitologias - cananeia, egípcia, babilônica e judaica -, expondo seus deuses, o culto que lhes são oferecidos e sua influência na humanidade, em um grandioso teatro mitológico.
A erudição de Mann também é demonstrada quando os episódios mitológicos são comparados e entrelaçados em diversos pontos da obra, ocasião em observamos claramente a referência ao Mito do Eterno Retorno aludido por Mircea Eliade.
Ainda, penso que o autor também se utiliza da Teoria Histórica de Cícero para a qual a história não pode ser um conglomerado de fatos ou arranjos, mas, sobretudo, uma realização na Terra de um destino, ou finalidade cósmica, onde a vontade humana se plasma a partir da superação dos instintos e dos desejos mais densos e grosseiros dentro dos indivíduos e fora deles.
O simbolismo empregado pelo autor é percebido ao longo de toda a obra, mas especialmente na primeira parte das Histórias de Jacó. Está leitura exige atenção.
Ademais toda a carga simbólica do livro, temos contato com a cultura cananeia e de outros povos com os quais Jacó e sua tribo mantêm contato, seus usos e costumes, sua cultura; percorremos as paisagens desérticas, os pores do sol e as alvoradas; a flora das regiões andadas; a vida dos pastores no seu cotidiano de trabalho, de alegrias e tristezas.
Em suma: um livro extraordinário.
Paul Thomas Mann foi um escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social do Império Alemão. Tendo recebido o Nobel de Literatura de 1929, é considerado um dos maiores romancistas do século XX.