I began to laugh, and i have not stopped since
- Søren Kierkegaard encapsula perfeitamente a dualidade que nomeia o livro. As pessoas ao seu redor sempre o descreviam assim como a sua obra é, desconfortavelmente irônico e sarcástico. Ele desfez o seu noivado com Regine Schlegel [23 Jan 1822 - 18 Mar 1904] por acreditar que seu chamado a uma vida de intelectualidade, filosofia e religiosa lhe tornavam indigno do casamento. Decisão da qual ele se arrependeu (tudo indica) até o fim de sua vida, tendo o casamento como a maior forma de revelação divina. -O livro me tocou profundamente, primeiro como Cristão e depois como um estudante. Kierkegaard parte numa cruzada divina para reintroduzir o cristianismo a fé Cristã no ocidente; e isso já é mais que o suficiente para que eu admire o esforço que ele empreendeu ao escrever esse livro. O seu argumento e o seu ponto de partida em quase todas as obras sempre prefiguram algo grandioso como um mini cosmo do livro de Jó e o enfrentamento do indivíduo com o problema do sofrimento e da existência. - O autor é conhecido por sua capacidade de utilizar do sarcasmo e dos pseudônimos para mascarar seus argumentos e suas autocríticas sobre a identidade de outro... Johannes De Silentio, Victor Eremita [editor dessa obra], Johannes the Seducer, A, B [Judge William], Anti-Climacus, Vigilius Haufniensis, Constantin Constantius e muitos outros. Nessa obra em específico o editor Victor Eremita teria encontrado os escritos de 'A' [Either] e 'B' [Or] dentro de um móvel usado que lhe causa uma dor de cabeça num dia importante. O editor encontra os textos e os reúne sobre as duas seções do livro que lhe nomeiam, Either que contém os escritos de 'A' e Or que contém os escritos de 'Judge William' ou 'B'. Também entre os escritos de 'A' se encontram um diário e uma coletânea de cartas pertencentes a 'Johannes the Seducer', isso indicaria uma relação que não é esclarecida entre 'A' e 'Johannes the Seducer'. - Depois de recomeçar a leitura três vezes e enfim conseguir a edição física da Penguin eu finalmente terminei a minha primeira leitura e de Either/Or. Para que o leitor persista na leitura eu recomendo ler no formato de Epub; ler em Pdf é uma alternativa infinitamente inferior; recomendo o app Calibre pra ler Epubs no Computador/Notebook. Além disso, se for possível acompanhe as aulas de - Michael Sugrue no Youtube para que as referências literárias façam mais sentido e as correlações com Hegel, Kant, Schiller e com tantos outros intelectuais fiquem mais claras. - EITHER - - Na primeira metade do livro o tom de uma discussão estética imprime um sabor único na leitura. O autor manuseia com habilidade imagens literárias que variam bastante dentro do espectro da educação clássica-burguesa da época. Kierkegaard tira do seu arsenal de ironias pérolas literárias como: "Boredom is the root of all Evil - the despairing refusal to be oneself." E também: "The gods were bored and so they created man. Adam was bored because he was alone, so Eve was created. Thus boredom entered the world, and increased in proportion to the increase in population. Adam was bored alone, then Adam and Eve were bored together; them Adam and Eve and Cain and Abel were bored en famille; then the population of the world increased, and the people were bored en masse. To amuse themselves, they hit upon the notion of building a tower so high that it would reach the sky. This notion is just as boring as the tower was high and is a terrible demonstration of how boredom had gained the upper hand. Then they were dispersed around the world, just as people now travel abroad, but they continued to be bored. And what consequences this boredom had: humankind stood tall and fell far, first through Eve, then from the Babylonian tower." Ou então: "Marry, and you will regret it; do not marry, you will also regret it; marry or do not marry, you will regret it either way. Laugh at the world's foolishness, you will regret it; weep over it, you will regret that too; laugh at the world's foolishness or weep over it, you will regret both. Believe a woman, you will regret it; believe her not, you will also regret it; Hang yourself, you will regret it; do not hang yourself, and you will regret that too; hang yourself or do not hang yourself, you will regret it either way; whether you hang yourself or do not hang yourself, you will regret both. This, gentlemen, is the essence of all philosophy." E por fim: "A fire broke out backstage in a theatre. The clown came out to warn the public; they thought it was a joke and applauded. He repeated it; the acclaim was even greater. I think that's just how the world will come to an end: to general applause from wits who believe it's a joke." O autor exprime e incorpora um Orgulho de caráter "Promethean" orgulho esse que profetiza as obras de Nietzche de forma tão exata que a conclusão de 'A' se resume a adoração a arte como expressão da sua angústia interior mesmo que sem o caráter abertamente blasfemo ao qual Friedrich daria voz no futuro. - Para ilustrar seus argumentos [argumentos esses que são bem complicados de seguir de perto pela não familiaridade com os termos típico de discussões de categorias estéticas] Kierkegaard evoca imagens e conta uma história muito engajante que surge da literatura romântica alemã, dos mitos pagãos gregos, das mitologias locais do folclore norte-europeu, da literatura Bíblica e acima de tudo e todos, Mozart. - Mozart e Goethe ocupam lugares excepcionalmente especiais para se entender a ideia de um 'sedutor'; em particular os personagens de Don Juan e de Fausto servem como duas faces da mesma moeda que passa a ser o alvo de análise da segunda metade de "Either" com a narrativa detalhada de 'O diário de um Sedutor'. 'A' recebe o diário do sedutor e aparentemente a correlação aqui é de que ele seria o amigo do sedutor em questão a quem ele confiou esses escritos de caráter extremamente pessoal sobre uma história trágica que relata o fim de um noivado sobre pretensões absurdas que nos levam a questionar a sanidade e a moralidade até mesmo de 'A'. - Entretanto a figura de Fausto, encontra sua redenção [que vem dos braços do divino e do feminino] eclipsada aqui em Kierkegaard, eclipsada pela paixão do indivíduo com sua própria angústia. Com o fim da leitura de "Either" eu estava intoxicado ao máximo pelo que o homem estético evoca. A leitura certamente tocou em muitas memórias infelizes minhas kkkkk. A leitura é profunda e o diálogo no qual eu entrei com o autor foi pessoal demais para mim. - OR - - No início de "Or" Kierkegaard finalmente assume sua posição radical e seu comprometimento absoluto com o ético em primeiro lugar e sua visão de como as dualidades tão presentes em "EITHER" são transfiguradas pelo aspecto ético, elevando-as e não as destruindo. - Kierkegaard assume uma defesa do casamento e de sua beleza até mesmo em categorias estéticas e defende que é sim capaz de preservar o amor mesmo com a aparente monotonia da vida de casado. Aqui o Judge William também entoa um louvor ao feminino e ao divino que reside no contato honesto, humilde e real com o sexo oposto. A crítica ferrenha a 'A' em todas essas áreas da segunda seção do livro, não parte de outro sentimento e disposição se não o da simpatia por 'A'. Ele diz que sabe exatamente onde ele se perdeu e conhece a sua paixão pela própria dor que o leva a uma vida tão distante dos aspectos éticos que se impõem sobre a o dever universal da individualidade. Após isso, o autor se lança sobre a defesa do Dever individual como algo positivo desemboca num comprometimento absoluto da escolha como fruto do dever interno, o dever interno de se escolher absolutamente em sua concretude. Depois disso tudo Kierkegaard volta a Aristóteles para reforçar uma defesa da amizade e dos relacionamentos humanos como necessárias para a completude da experiência humana assim como o casamento. - E por fim um sermão sobre a doçura de estar sempre 'errado' em relação a Deus e nesse último texto o sermão escrito por um amigo do Judge William finalmente revela a face de Kierkegaard em relação aos dois autores. No sermão se descreve a vida de uma pessoa que quer com toda sua alma cumprir o seu papel de se casar e de viver e experienciar o papel e o dever universal, mas que por conta da sua própria particularidade se torna sempre alguém alheio, distante, alienado ao que ele mais admira. Essa última seção soa como algo autobiográfico e termina o livro de forma perfeita. Por último recomendo a minha playlist para a leitura de Kierkegaard no Spotify kkkkkkk Kierkegaardian Anxiety disponível em: https://open.spotify.com/playlist/2Q9jSbx7YjD64AN90eI2Rc?si=b59136b5213f4e6b


