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    A Inquisição em Seu Mundo -

    João Bernardino Gonzaga

    Saraiva
    1993
    247 páginas
    8h 14m
    ISBN-10: 8502012673
    Português Brasileiro
    4.2
    56 avaliações
    Leram65Lendo8Querem108Relendo0Abandonos3Resenhas8
    Favoritos2Desejados108Avaliaram56

    A Inquisição é um tema sempre atual, que suscita repulsa e indignação pelos procedimentos bárbaros e implacáveis que utilizou em seis séculos de existência. Para um julgamento justo e imparcial, todavia, cumpre analisá-la como fenômeno histórico imerso na atmosfera que a envolveu e sob a influência dos fatores culturais, políticos, sociais, econômicos, religiosos e científicos à época existentes. Em A Inquisição em seu mundo, o Prof. João Bernardino Gonzaga realiza uma análise profunda e serena da Inquisição européia, mostrando-a não como um fato isolado, mas dentro das condições e vida que a explicam e a justificam. Desse modo, o livro apresenta ensinamentos altamente esclarecedores para quem deseja compreender o assunto.

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    Igor Almeida19/06/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Cuidado com anacronismos

    E lá estava eu, no ensino fundamental de uma escola de bairro da minha cidade, em uma aula de história. Essa aula tratava da "Santa Inquisição" (é importante ter sempre o "Santa" pra não perder o ar de ironia), em que a Igreja perseguia e matava os hereges que se recusavam à submissão. Onde os considerados pagãos passavam por todo tipo de suplício imaginável. Longos momentos de aula explicando as máquinas de tortura, mostrando a crueldade da Igreja Católica. E a isso se resumiu toda a explicação que tive sobre a Inquisição, mais nada. Depois de uma aula com esse viés, que tipo pensamento qualquer pessoa honesta nutriria a partir de então pela Igreja? Ódio? Culpa e contradição se você for católico? Repulsa? Tudo isso é o mínimo a se esperar. Esse modelo de aula não é por acaso e nem despropositadamente... Neste livro, o próprio título já é autoexplicativo: "inquisição em seu mundo". E assim o autor explica em que contexto a Inquisição foi criada. Não se trata de defender os atos cometidos e suplicar pela volta da Inquisição, mas sim de não olhar para trás com os olhos do presente. De novo, é preciso ter em mente, com clareza, o modo de vida medieval, em que execuções em praça pública eram eventos para levar as crianças e se divertir no fim de semana. Essa era a mentalidade comum. Baseado nisso, como seria a justiça secular? Quanta inocência crer que as penas seriam suaves ou minimamente parecidas com as de hoje. Havia de tudo: forca, arrancar olhos, marcação em ferro quente no rosto, cortar um lábio fora para cada vez que fosse pego roubando, arrancar unhas, ser queimado vivo, etc... O que dizer quando se descobre que as penas da Inquisição eram muito mais leves que as da justiça secular? Que, no intuito de buscar a misericórdia (sabidamente um ideal cristão), as penas infligidas eram menos sangrentas que as da lei comum e ainda com possibilidade de libertação em caso de arrependimento (em nome do perdão, outro ideal religioso)? Que muitos prisioneiros comuns fingiam heresia para serem julgados não pela lei civil, mas pela inquisição? Curioso... A dor, o sofrimento e o fogo sempre foram considerados purificadores da alma humana (vide várias seitas religiosas que faziam - ou fazem? - autoflagelação). Correto ou não, as pessoas são filhas de seu tempo e agem conforme. Se ainda hoje encontramos pessoas supersticiosas que se prejudicam tomando todo tipo de remédios exóticos que encontram por aí ou mesmo deixando de buscar atendimento médico em prol de uma reza, imaginemos a que nível de superstição chegaria o homem medieval comum. A crença que o fogo purifica, por exemplo, é muito anterior ao cristianismo. Pessoas sendo "purificadas" (queimadas vivas) na fogueira é uma prática milenar. Aos olhos da época, era uma bondade que estava sendo realizada; no caso medieval, livrando a dita bruxa dos demônios, com várias pessoas ao redor rezando e pedindo que Deus a recebesse. Enquanto olharmos para essa prática com os valores atuais, tudo que conseguiremos enxergar é um ritual macabro e machista. Não nos limitemos a isso. Reitero que não é uma questão de defender ou não essas práticas. Críticas sempre existiram e sempre devemos buscar o progresso. Mesmo naquela época, já havia quem considerasse esse tipo de "bondade" desnecessária e bárbara. Soma-se ainda vários casos de penas com interesse político (sempre vai haver corrupção na ação humana...). Por fim, a questão fundamental é tentar não cometer anacronismo, é tentar entender como as pessoas realmente pensavam o que as moviam. Somente assim conseguiremos compreender com sinceridade o que foi a Inquisição. Numa aula, não seria difícil tudo isso ser explicado juntamente com as explanações instigantes sobre as máquinas de tortura e deixar que cada aluno formasse seu próprio ponto de vista com um mínimo de autonomia. Mostrar apenas o lado bárbaro, mantendo os alunos com os olhos do presente, invariavelmente vai gerar uma imagem da Inquisição como uma instituição puramente sedenta por poder e ditatorial. Por que fazem isso? A verdade realmente importa quando se trata de educação nas escolas brasileiras?

    18 curtidas

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