“Dentre as mais importantes características dos Estados fracassados figuram a incapacidade de proteger seus cidadãos da violência – talvez até mesmo da destruição – e governantes que dão mais prioridades a garantir o poder e a riqueza dos setores que dominam o Estado. Outra característica é serem ‘Estados fora-da-lei’, cujas lideranças tratam com desprezo o direito e os tratados internacionais, instrumentos de aplicação compulsória para outros, mas não para o Estado fora-da-lei.”
Em “Estados Fracassados”, Noam Chomsky analisa e denuncia a invasão norte-americana criminosa do Iraque como parte de uma estratégia política maior para um rearranjo do Oriente Médio dentro das perspectivas e interesses de Washington durante o governo Bush. Fartamente documentado, o livro faz um apanhando sobre a política externa dos EUA desde a famigerada “guerra ao terror” de Ronald Reagan, evidenciando uma linha de continuidade desde então, e de como as intervenções e ações americanas estão no germe do surgimento de grupos terroristas como a Al-Qaeda – que recebeu financiamento e armas dos americanos para lutar contra a invasão soviética ao Afeganistão. Utilizando-se de uma propaganda mentirosa e apoiado pelo lobby empresarial, Bush destruiu o Iraque, um país que apesar dos problemas mantinha-se estável, e criou condições favoráveis para a guerra civil, eclodida após a desocupação do país, que é a origem do Estado Islâmico, mais um dos filhos paridos pelas ações americanas mundo afora.
Achei interessante o fato de Chomsky citar e discorrer intervenções norte-americanas em diferentes épocas e períodos históricos, sob os mais variados governos (democratas ou republicanos), que mostra que a política externa agressiva de Washington não é algo esporádico, mas sim a linha central da ação da chamada “forte linha de continuidade” definida no livro. Em termos de política externa, a diferença entre democratas e republicanos é quase nula e ambos são o que o autor define como o “partido dos negócios”, o partido único que move a política interna e externa dos EUA desde sempre. Escrito em 2006 o livro é extremamente atual e dá um bom norte para a compreensão de muitos acontecimentos e fatos que cercam o Oriente Médio atualmente, como a Guerra da Síria, o autoritarismo sionista na Palestina e uma série de questões sobre a geopolítica mundial.
Apesar da retórica dos EUA condenar os chamados “Estados fracassados”, Chomsky mostra como os Estados Unidos seguem à risca a sina dos “Failed States”, isto é, uma sociedade cada vez menos democrática, com déficit de participação popular nas decisões, empobrecida, com forte concentração de renda, dominada pelas corporações, belicosa e descumpridora de normas e convenções internacionais por ser julgar acima do bem e do mal.
Ler Chomsky é fugir das narrativas mentirosas e manipuladoras da mídia ocidental, que é sempre capacho dos interesses norte-americanos.