Dez anos no mar (Família Schürmann). A família Schürmann, composta por Eloí, Vilfredo e seus três filhos, decidiu embarcar em uma aventura extraordinária em 1984 ao navegar pelo mundo em um barco de 40 metros quadrados. Apesar de suas vidas estáveis em Florianópolis, onde Eloí era professora de inglês e Vilfredo economista, uma experiência no Caribe dez anos antes tinha acendido o desejo de velejar. Após enfrentar a rotina desgastante e a pressão do trabalho, especialmente após uma reunião frustrada em Brasília, Vilfredo decidiu que era hora de transformar o sonho em realidade. Ao compartilhar a ideia com a família, o primeiro desafio foi convencer os parentes sobre essa mudança radical, já que deixariam a vida convencional para trás. Eles iniciaram o planejamento, adaptando a educação dos filhos por meio de um sistema de ensino à distância, permitindo que continuassem seus estudos enquanto estavam no mar. A rotina a bordo era rigorosa, com a preocupação constante de que as crianças não ficassem para trás nos estudos. O que começou como uma viagem planejada para dois anos se estendeu para uma década cheia de experiências e aprendizados. Durante essa jornada, enfrentaram diversas adversidades, como a perda de parentes e o amadurecimento dos filhos, que foram desenvolvendo suas próprias trajetórias. O filho mais velho acabou ficando nos Estados Unidos para estudar, enquanto os outros dois também começaram a moldar seus futuros. A narrativa de Eloí, detalhando a vida marítima e suas adaptações, apresenta um tom autêntico e sem pretensões moralistas, fazendo com que os leitores se sintam parte dessa jornada. À medida que os Schürmanns cruzavam os oceanos, cada porto oferecia novas experiências, desafios e lições, que ampliavam ainda mais seus horizontes e fortaleciam os laços familiares. As dificuldades encontradas ao longo do caminho foram contrabalançadas por momentos de conexão, aprendizado e transformação. Cada ilha visitada, cada nova pessoa conhecida, trouxe ensinamentos que enriqueceram sua vivência e contribuíram para a formação de um caráter forte e resiliente nas crianças. A vida a bordo, embora cheia de desafios, também era repleta de aventuras que ampliaram suas perspectivas e os prepararam para o futuro incerto que os aguardava fora do mar. Visitando ilhas com tradições singulares e hábitos quase anacrônicos, a família encontrou tanto desafios quanto encantos. Um episódio emblemático ocorreu quando Vilfredo, ao chegar em uma nova ilha, inadvertidamente sentou-se em um lugar reservado entre dois importantes líderes tribais. A confusão gerou murmúrios, e ele temeu pela sua segurança, mas o líder local compreendeu sua boa intenção e acalmou os ânimos. A recepção calorosa que encontraram em muitos lugares estava ligada ao carinho que essas comunidades tinham pela cultura brasileira, especialmente pelo esporte, com referências a ídolos como Pelé. As relações mantidas em alto mar também foram exemplares, revelando que a comunidade de velejadores formava uma rede global. Eloí e a família muitas vezes cruzaram com pessoas conhecidas, inclusive vizinhos de Florianópolis, em lugares inesperados. O escambo foi uma prática comum em suas paradas, onde trocavam roupas ou utensílios por alimentos e suprimentos, destacando a adaptabilidade da família. Os filhos aprenderam, desde pequenos, a desempenhar funções essenciais a bordo, desenvolvendo habilidades necessárias para a sobrevivência em alto-mar. A aventura também trouxe riscos, que iam além de naufrágios. A montagem e manutenção do barco exigiam atenção constante, e diversas situações perigosas ocorreram, como quando peças soltas quase causaram acidentes graves. Vilfredo enfrentou desafios em locais onde havia tubarões, e um índio o salvou de um ataque. Em outra ocasião, a família quase sofreu uma explosão devido ao gás de cozinha inadequado. Apesar das dificuldades, cada crise acabava fortalecendo a dinâmica familiar e desenvolvendo a resiliência das crianças. A falta de recursos modernos tornou suas experiências mais ricas, já que se guiavam por cartas náuticas e faziam questão de se informar sobre as culturas locais antes de cada parada. A burocracia, com autorizações necessárias e inspeções, foi parte integrante de sua viagem, assim como os riscos associados ao contrabando e à presença de piratas, especialmente na costa da Colômbia, considerada uma das mais perigosas. Este cenário exigia uma vigilância constante e uma compreensão profunda do ambiente em que navegavam. Era notável a força do vínculo criado através dessas experiências, onde cada dia trazia aprendizados e memórias que ficariam para sempre gravadas na história da família. O barco, o Guapos, não era apenas um meio de transporte, mas um lar temporário e um símbolo da busca por aventura e descoberta. Enquanto as crianças cresciam e enfrentavam as realidades do mar e da vida, a narrativa da família Schürmann se entrelaçava com as maravilhas e as dificuldades do mundo que os rodeava. Na narrativa da família Schürmann, um episódio inesperado aconteceu quando um americano se interessou pelo barco, admirando sua estrutura e perguntando quanto Vilfredo queria por ele. Sem esperar que o valor pedido, que era o dobro do preço real, fosse aceito, Vilfredo ficou surpreso ao ver que o visitante aceitava a proposta. A venda do barco trouxe uma avalanche de sentimentos confusos, já que aquele não era apenas um meio de transporte, mas um lar e um símbolo de toda a jornada vivida. Com a decisão tomada, a família se encontrava em busca de um novo barco, enfrentando a dificuldade de encontrar uma embarcação que atendesse suas necessidades. Durante essa busca, eles alugaram veículos e apartamentos, percorrendo diversas opções. Apesar de visitarem mais de 50 barcos, a frustração aumentava na medida em que as alternativas nem sempre eram adequadas ou estavam fora do orçamento. No entanto, a perseverança da família prevaleceu e, eventualmente, eles conseguiram encontrar uma nova embarcação que lhes permitiu retomar suas aventuras marítimas. A partida da Nova Zelândia foi marcada por uma troca que envolveu o filho David, que optou por permanecer estudando com uma família local, enquanto o filho desta família se juntou à família Schürmann. Entretanto, enquanto deixavam a Nova Zelândia, uma tempestade repentina complicou a travessia. As velas do barco se romperam, e a situação se tornou ameaçadora, com os barcos de resgate incapazes de ajudar devido às más condições climáticas. Apesar de estar seguro em terra, David acompanhava a situação com apreensão, preocupado com o bem-estar de sua família. Ele escreveu sobre essa experiência, revelando suas emoções e anseios em um texto que refletia sua maturidade crescente aos 17 anos, enriquecido por referências literárias. Esse capítulo se destacou, trazendo uma nova perspectiva e evidenciando a mudança de tom da narrativa que refletia tanto a tensão do momento quanto a transição climática, alterando o ambiente alegre pelo frio rigoroso. As experiências ao redor do mundo proporcionaram um aprendizado incomparável para as crianças, que testemunharam maravilhas naturais e se depararam com situações desafiadoras, como encontrar-se ao lado de uma baleia ou manter a calma diante de um tubarão. A educação da família foi além do convencional; os filhos exploraram e leram, constituindo uma biblioteca rica em aventura e aprendizado durante os anos de navegação. A experiência de vida se entrelaçou com a evolução pessoal de cada um, culminando no desenvolvimento de David, que mais tarde se tornou cineasta e produziu um filme sobre amizade com um pinguim. À medida que seus filhos vivenciavam realidades que enriqueciam seu entendimento do mundo, como a história do apartheid na África, eles também incorporaram lições práticas e acadêmicas que somente uma jornada desse calibre poderia oferecer. A leitura sobre essa trajetória tornou-se inspiradora, refletindo o valor único das experiências adquiridas ao longo de uma década navegando por mares e culturas. A história da família Schürmann segue ativa, com eles atualmente envolvidos em projetos de proteção ambiental e parcerias com a ONU, refletindo seu compromisso com causas socioambientais. Continuam a organizar novas excursões, compartilhando suas experiências e aprendizados por meio de entrevistas e audiolivros disponíveis em plataformas digitais. A questão do financiamento para sustentar esse estilo de vida aventureiro é ressaltada, com a família reconhecendo o apoio de patrocinadores e marcas que contribuíram para a realização de seus sonhos, sem que isso diminuísse a essência de sua jornada. O livro, que mistura relatos de viagem com reflexões sobre a vida no mar, conta com fotos que documentam a rotina da família e os momentos marcantes vividos durante os dez anos de navegação. A autora expressa a vontade de saber mais sobre determinadas histórias, como a experiência da Eloí ao quebrar um dente, evidenciando a curiosidade por detalhes que muitas vezes não foram aprofundados no texto. Essa falta de extensão em algumas narrativas deixa um espaço para a imaginação, embora a riqueza das vivências compartilhadas transmita a dinâmica do dia a dia no barco e as aventuras enfrentadas. Além das interações sociais e das dificuldades superadas, o livro captura o valor das experiências reais, mostrando que essas vivências, mesmo em sua simplicidade, possuem um significado profundo.
DEZ ANOS NO MAR -
FAMILIA SCHURMANN
Record
1995
329 páginas
10h 58m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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