Através dos Séculos
Inda chora o Senhor nas horas mudas
Na cruz de vinte séculos ingratos,
Contemplando a progênie de Pilatos
E a descendência exótica de Judas.
Examina os Herodes insensatos,
Os novos Barrabás de mãos sanhudas
E as multidões misérrimas, desnudas
Que lhe cospem no ensino a pugilatos.
Chora Jesus! Amargamente chora,
E clama à sede imensa que o devora,
Buscando gerações, enchendo espaços!
Em toda a Terra, há lívidos incêndios..
E entre as humilhações e os vilipêndios,
Contempla o mundo que lhe foge aos braços.
Augusto dos Anjos.
- Soneto mediúnico, inédito, do eminente poeta paraibano Augusto dos Anjos, desencarnado em Leopoldo MG., no ano de 1914.
(...) É natural que logo após o desencarne, especialmente se este se deu muito
dolorosamente, que o espírito ainda sinta por algum tempo os reflexos da doença por
que passou, situação que logo é contornada à medida que o espírito se tranquiliza e
procura se desligar das preocupações terrestres.