A história de Jordi Magraner, contada por Gabi Martínez, parece ser, a princípio, a história de um homem. Um homem, diga-se de passagem, difícil de caracterizar: às vezes seu físico é fraco, às vezes, forte; às vezes ele é generoso, outras, arrogante e mesmo pouco sociável; às vezes parece assexuado (até mesmo supostamente virgem), outras, o ambiente das montanhas do Paquistão parece destacar sua sexualidade; ora é independente, ora está pedindo dinheiro emprestado. Enfim, toda aquela inconstância que, num maior ou menor grau, encontramos em qualquer outro homem. Mas que neste livro também reflete a dificuldade de o escritor traçar um perfil em linhas fortes, não obstante a fartura de material que encontra em diários, cartas e outros escritos.
Não é isso que o torna especial, claro. Poder-se-ia dizer que é a sua morte, brutal, trágica. Mas, nas tragédias, o sangue só corre depois que toda a trama dolorosa já foi cosida. E é algo como uma trama, na qual a vida de Magraner é um nó de muitos fios, que torna a investigação de Martínez algo interessante. Aliás, de certo modo, seu próprio livro é mais um fio nessa trama.
A trama não é apenas um capitulo da ascenção do jihadismo, da Al Qaeda e de Osama Bin Laden. Se fosse possível sintetizá-la em um único período, diria que se trata de atravessar, sem método, o microcosmo complexo e caótico das atuais relações entre ocidente e oriente, em múltiplos níveis: científico, cultural, político-diplomático, sócio-económico... O ocidente, no caso, é aqui representado por uma Europa em crise, que flerta com o neonazismo, em seus subúrbios de imigrantes "tradicionais", diante da pobreza e do surgimento de novos imigrantes, mais aguerridos e marginalizados (os árabes, sobretudo). A máscara do oriente, por sua vez, é empunhada por uma região igualmente em crise, o Hindu Kush, fronteira entre Paquistão, Afeganistão e Tadjiquistão, mas, acima de tudo, fronteira entre remanescentes de sociedates que não estão totalmente unificadas sob qualquer um desses três Estados, verdadeiras nações distintas e concretas vivendo em perene desconfiança entre si: os kalash, os nuristaneses, os pachtuns. Talvez eu tenha perdido algum nome, mas esses sãos os três grupos principais.
Isso, porém, apenas do ponto de vista da geografia, se assim se pode dizer. Em meio a todos aqueles fios, temos a transição de uma tarefa a princípio criptozoológica (encontrar o barmanu, ou seja, nada mais, nada menos que o pé-grande, o yeti, com direito a uma incursão no meio acadêmico europeu, com críticas a um certo "bloqueio darwinista"), para ações humanitárias e, por fim, uma atitude de resistência politico-cultural.
Difícil dizer o que, em toda essa trama, deixará o leitor brasileiro mais perplexo: conhecer um pouco da crise social europeia ou localizar-se em meio a nomes asiáticos pouco conhecidos, entre eles o de um povo pagão que se crê formado por descendentes de Alexandre Magno.
Uma coisa, penso, é certa: ao final, o leitor terá aquela sensação de que o yeti e a investigação inconclusa sobre o assassinato do zoólogo espanhol serão os mistérios menos interessantes em toda essa trama. O grande mistério, bem como a grande revelação, é ver que há um conflito político-cultural de dimensões globais em curso, e não é possível dizer como ele irá evoluir. Talvez se possa apenas supor que, no futuro, vidas como as de Jordi Magraner terminem consideradas como casualidades no seio desse conflito.