Antes de qualquer coisa preciso dizer que esperei ansiosamente durante muitos e tantos anos, desde o primeiro dia em que o vi, não exatamente por este livro, mas por "Cartas de Amor de Fernando Pessoa". Até ser presenteada por esta obra ainda mais completa e com certeza mais emocionante (presente de meu filho). Nela encontram-se muitas cartas que eram inéditas até o momento de sua publicação.
O livro inicia com interessantes depoimentos dos organizadores da obra, pelo emocionado relato de Ofélia em 1977 à sua sobrinha (contando como foi o relacionamento) e pelo não menos emocionante relato de Maria das Graças Queiroz, sobrinha de Ofélia.
Em quinze anos de relacionamento, fora os 10 anos de afastamento, foram 59 cartas e bilhetes de Fernando Pessoa, e 289 peças de Ofélia. Destes, vários dos cartões postais enviados por Ofélia aparecem reproduzidos nas guardas do livro. As cartas aparecem em ordem cronológica e estão divididas em quatro etapas distintas: Cartas amorosas (1919 a 1920), Cartas frustradas (1929), Cartas solitárias (1930 a 1931) e Epílogo. Na parte final encontra-se a reprodução, feita pela primeira vez, de todos os manuscritos de Fernando Pessoa à Ofélia, guardadas por ela até sua morte em uma caixa de bombons que Fernando Pessoa oferecera a ela. Em 1978 surge a primeira edição das "Cartas de Amor de Fernando Pessoa". Nesta época não se podia supor que o poeta tinha guardado todas as cartas, bilhetes e cartões postais de Ofélia, e, que em 1996, cinco anos após a morte de Ofélia, foram publicadas por Manuela Nogueira, sobrinha de F. Pessoa. A obra que tenho
foi publicada em abril de 2013 reúne todas as cartas e é o resultado conjunto do esforço de várias pessoas.
Ler este livro nos faz sentir em algum momento como se estivéssemos invadindo a intimidade profunda dos namorados. E esta não é uma leitura fácil, apesar de muito emocionante. Quando se conheceram Ofélia tinha 19 anos e Fernando Pessoa 31. Ela era uma jovem alegre, moderna para a época, falava e escrevia corretamente o francês comercial, escrevia à máquina e falava um pouco de inglês. Ela tinha ido em resposta a um anúncio de emprego na firma Félix, Valadas & Freitas, embora os pais não concordassem, já que não havia necessidade dela trabalhar para seu sustento. Fernando Pessoa trabalhava na firma que era de seu primo, não exatamente como empregado (talvez nem recebesse por isso), ajudava na correspondência e fazia traduções diretamente do inglês e francês (já que falava o inglês com perfeição). O livro mostra um Fernando Pessoa totalmente diferente do que conhecemos através de suas obras.
Não resta dúvida que Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz se amaram muito, tanto que ambos guardaram as cartas até o final de suas vidas. As palavras, as cartas e o que elas nos deixam entrever são as provas deste amor, que me atrevo a dizer, foi eterno. Fernando Pessoa jamais teve outro relacionamento amoroso e Ofélia o esperou durante toda vida, só tendo se casado depois que ele morreu. Com a morte de F. Pessoa, Ofélia, muitas vezes instada por jornalistas a dar depoimentos sobre o relacionamento costumava dizer: " faz de conta que morri também". O mais que se possa dizer são apenas hipóteses. Acredito que nenhuma resenha será suficiente para dar uma noção deste fascinante livro.
A história de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz é um lembrete de que o amor pode ser profundo e significativo, mesmo que não siga o caminho tradicional ou o esperado e que as relações humanas são frequentemente marcadas por nuances e desafios inesperados.