Em "Fazendo Ana Paz", a história surge através de fragmentos dispersos, como fotografias em álbuns antigos. Um autor à procura da personagem... ou será a personagem à procura do autor? Bem diferente de outros personagens de Lygia Bojunga, Ana Paz tem "um endereço certo" e um compromisso no passado que ela precisa resgatar. Mas onde fica o elo que comporia um enredo para esses retratos descosturados pelo tempo? "Fazendo Ana Paz" compõe com "Paisagem" e "Livro, um encontro com Lygia Bojunga" uma trilogia na qual a autora busca dialogar consigo mesma e com o leitor sobre questões que emergem do processo de criação/recriação de uma obra literária.
Fazendo Ana Paz -
Lygia Bojunga
Somos livres somente se soubermos que o somos
Fazendo Ana Paz é uma breve história de uma personagem que, assim como a narrativa, é poeticamente curiosa. O livro começa com a personagem escrevendo uma personagem fictícia, Raquel, de apenas 10 anos e que tem um amigo imaginário chamado André. Depois fez uma personagem chamada Ana Paz que odeia ser chamada por algo diferente de Ana Paz; depois faz uma moça jovem de 18 anos enamorada pelo Antônio e faz até uma senhora de 80 anos. Porém, todas as personagens são iguais, uma mancha e desaparecem tão misteriosamente como apareceram. Consequentemente, somos levados a pensar sobre a criação desses personagens, a ligação (ou não) deles com quem as escreve e o vazio sentado no sofá ao lado dessa narrativa que brinca de ser e não ser ficção. Para mim, há muitas coisas que me chamaram atenção nesse livro, como o significado da carranca e a relação escrita=memória, mas o que eu vou chamar de click (uma das interpretações possíveis), é a cereja do bolo. Entendemos por click o momento que Ana Paz percebe que viveu a vida toda como uma personagem de sua própria história, e não uma autora-personagem, ou seja, viveu até então a sombra de outras pessoas. Essa sombra é representada pela figura masculina, seja ela a de um pai misterioso, de um namorado ou de um filho. Porém, ela percebe que chegou a hora de escrever a própria história, de fazer valer a sua liberdade e que para isso, é preciso destruir tudo o que ela é para então construir algo completamente novo. Assim, o livro nos leva a questionar sobre como vivemos a nossa vida e se a vivemos como queremos (se somos autores-personagens) ou se estamos vivendo uma vida vazia (personagens/sombra de algo); nos leva a pensar também que muitas pessoas morrem sem antes passarem pelo click e os que passam, mais comumente na velhice por estarmos mais perto do fim, muitas vezes são contrariados (por si mesmos ou por segundos) pela idade avançada. O livro carrega questões existencialistas e por isso, é um prato cheio de realidade. É fantástico!
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