Há tempos temido em minha estante, talvez pela complexidade história, ‘Rio Homem’, livro de estreia de André Gago, se mostrou um livro que eu encaro facilmente como favorito; algo que eu não encontrava há anos. Talvez a empolgação se dê por ser um livro lusófono, mesmo que não necessariamente brasileiro. Mas bate aquele orgulho.
Com uma precisão histórica e geográfica invejável (o autor revelou demorar 12 anos para escrevê-lo), Rio Homem fala sobre Rogelio, um jovem que, juntamente com um grupo de amigos, está fugindo da Guerra Civil Espanhola. O ano é 1939 e para fugir do fascismo liderado pelo Movimento Nacional, a única alternativa, é ir para Portugal.
A fuga parecia perfeita, mas um contratempo faz com que o fugitivo permaneça em Vilarinho da Furna, uma aldeia já em Portugal. A história seria comum se não tivesse uma precisão história que catapulta história para outros patamares: Vilarinho de fato existiu, e não somente isto, mas a partir de então, o fugitivo Rogelio nos faz caminhar até o que o vilarejo se tornou desde 1971.
É nessa aldeia comunitária, com ar de organização socialista e rodeada pelo Rio Homem, que Rogelio tenta se reerguer, mesmo que se sinta, não sem motivos, um homem sem liberdade, identidade e referências, ainda que acolhido e amado pelos habitantes – e amando também, de várias formas inimagináveis.
Mais que carregar uma história pouco conhecida sobre uma área praticamente de Portugal, ou manter o ritmo de um livro por vários anos (o livro vai de 1939 a 1971, passando pelo fim da Guerra Civil, abordando sua extensão em Galiza, permeando pela Segunda Guerra Mundial e chegando até a Guerra Colonial Portuguesa – muita precisão histórica para um livro só, mas que não cai a peteca em momento algum), Rio Homem é um livro contemporâneo que nasceu como clássico por não somente retratar a História de Portugal, abordar de maneira franca, singela e respeitosa.
Um livro atual sobre refugiados e a necessidade de abrir mão de identidade por conta de guerras, não importa a ideologia, ‘Rio Homem’ é um achado em anos. Um livro que deve ser lido, propagado, comentado e debatido pelo maior número de pessoas possível.
A ‘Coleção Novíssimos’ tem a intenção de, em 10 livros, reunir importantes nomes da nova Literatura Portuguesa. Para saber mais sobre os outros livros, acesse: