Guia gastronômico das favelas do Rio -

    Sérgio Block, Marcos Pinto, Ines Garçoni

    Arte Ensaio
    2013
    167 páginas
    5h 34m
    ISBN-13: 9788560504428
    Português Brasileiro

    A cultura das comunidades faveladas da zona sul carioca representa um concentrado da produção cultural que tradicionalmente emana da região suburbana como um todo. Assim, a arte de cozinhar e o prazer de apreciar, objetos deste saboroso livro, são assimilações e ampliações de hábitos alimentares das diversas correntes migratórias que chegaram à terra carioca; influenciadas - é claro- por outras variantes, como por exemplo, tempo de preparo e ocasião.

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    Aline Naomi Sassaki29/07/2013Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Comer bem em favelas, por que não?

    A ideia para o inusitado Guia Gastronômico das Favelas do Rio surgiu há alguns anos, quando o diretor Sérgio Bloch realizava filmagens para um documentário em algumas favelas recém-pacificadas do Rio de Janeiro. Ele e sua equipe gastavam muito tempo na hora do almoço, pois saíam das favelas para fazer as refeições, então começaram a procurar restaurantes nas próprias comunidades. Para o livro foram selecionados 22 estabelecimentos gastronômicos de oito favelas (Morro da Providência, Santa Marta, Tabajaras, Chapéu Mangueira/Babilônia, Vidigal, Rocinha, Morro dos Prazeres e Complexo do Alemão), sendo que um dos critérios adotados para a seleção foi que os donos tivessem histórias interessantes para contar, além de as comidas serem boas - pelas fotos, todas dão água na boca! Na abertura dos capítulos há um resumo histórico da favela onde os estabelecimentos a ser apresentados estão localizados. No histórico do Morro da Providência, no centro do Rio, por exemplo, ficamos sabendo que a demolição de cortiços naquela região, devido à política higienista ocorrida em 1893 (cortiços foram demolidos a fim de combater doenças), fez com que moradores buscassem alternativas de moradia nas encostas. E, em 1897, aos ex-moradores dos cortiços se juntaram soldados que haviam voltado da Guerra de Canudos - a quem o governo havia prometido moradia caso ganhassem a guerra (promessa que não foi cumprida). Foi nessa época que surgiu a designação "favela", em referência à semelhança do tal morro a um morro próximo de Canudos chamado Favela, base dos soldados durante a guerra. Também achei interessante o fato de a Rocinha (Zona Sul), favela mais populosa do Rio, já ter sido, de fato, uma "rocinha" nos anos 1930. Ali eram plantadas hortaliças, aipim, abóbora, bananeiras e outros alimentos e também se criava animais. Depois do breve histórico de cada comunidade, surgem histórias de empreendedorismo e criatividade de personagens interessantes e carismáticos, como a de Glimário, que saiu do Recife, arranjou um emprego em um restaurante no Rio e, depois de dezessete anos, abriu um restaurante na Rocinha, onde serve carnes de vários animais "exóticos", entre outras, de javali, capivara, avestruz, rã, jacaré e coelho. Tem também a Adriana, a "moça da empadinha", que parodia e canta letras de funk enquanto anuncia suas empadas. Ela até participou (como ela mesma) da novela Salve Jorge, ambientada no Complexo do Alemão - aliás, o "alemão" que deu nome à comunidade, na verdade, era um polonês que chegou ao Rio fugindo da Primeira Guerra Mundial nos anos 1920, Leonard Kaczmarkiewicz. Além de carnes exóticas e empadinha, o Guia também indica onde encontrar batida de Halls, feijoada, comida japonesa, comida nordestina, cachorro-quente, tapioca, açaí, frango no bafo, sanduíches e pizzarias. Na Pizzaria Elite, na comunidade Tabajaras, na Zona Sul, o cearense Antonio Claudio e a esposa, Arlete, servem 50 sabores de pizza com nomes de países, que foram escolhidos aleatoriamente. A massa é fina e crocante e ele diz que tem um segredo para fazê-la, mas não o revela, é claro. Já Silvania serve 35 tipos de pizza no Complexo do Alemão e diz que a mais pedida é a Carioquinha (presunto, calabresa, bacon, cebola e orégano). Apesar de servir refeições no almoço e no jantar, como pratos feitos com mocotó, frango assado e grelhado, nhoque à bolonhesa, e vender pães com recheios diversos, e de seu restaurante se chamar "Silvania Bolos", a preferência da maior parte do público é mesmo pelas pizzas. O livro tem capa dura, fotos muito boas, além de um ótimo projeto gráfico. Esse livro para mim foi uma descoberta e uma grata surpresa. Deu vontade de provar a comida de todos os lugares indicados.

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