Em “Os Dias na Noite”, a tragédia – fatal, como ela é para ser – repete-se. E tudo se conjuga, de todos os lados, para que ela se cumpra, o que também é clássico. Como na definitiva arte dos gregos, é toda a arquitectura da narrativa que entra em estado de conspiração. O constrangimento toma-nos, de resto, às primeiras páginas, quando um homem obnubilado de cio promete a mulher ao primeiro desconhecido que lho propõe. Mas este autor é, ainda assim, dos lúcidos, e cedo nos permite recobrar forças e perspectiva. Bem necessárias são elas, para as provações que virão – mas que, tanto é certo, não afectarão o prazer da leitura, tão refinados os golpes de teatro se hão-de revelar. «É a história mais bem concebida que algum dia conheci». Isso diz o protagonista, também ele autor de ficção, apercebendo-se do real enleio em que acaba metido, por sua muito pessoal obra e graça, aliás. Nós, ainda que de sobreaviso, reconhecemos que ele não exagera, mesmo sabendo-o senhor de poucas leituras. É que, como também acabara de confessar (este é um protagonista particularmente confessional), tudo quanto leu, na vida inteira, foi contra a vontade. Mas não há que fugir. É uma história muito, e muito, bem engendrada, essa que viemos seguindo. História exigente, também isso é certo, a pedir leitura concentrada e disposição para um ou vários estonteamentos. Nada de incomum, vendo bem. A verdadeira realidade é, quase sempre, complexa. E certas exigências tornam mais grato, mais gracioso, o prazer. É um livro duro – mais um – este de Pedro Chagas Freitas. Para ler com algum contrapeso de esperança no mundo. E para depois, um dia, voltar a ler. Porque é ao relê-lo que a sua arquitectura engenhosa e matreira, inteligente e mágica, se torna finalmente visível. in Prefácio, por Fernando Venâncio
Os Dias na Noite -
Pedro Chagas Freitas
Indiebooks
2009
154 páginas
5h 8m
ISBN-13: 9789896320225
Português
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