Antes de mais nada, vou me limitar a tratar do José Sarney escritor aqui. Vou fingir que o Sarney político - que não dispõe de minha simpatia - não existe, ok? Vamos tentar separar as coisas, ok?
De início, temos que admitir uma coisa. O Maranhão é um grande centro da cultura nacional. O estado nos deu Gonçalves Dias, Maria Firmina dos Reis, Aluísio de Azevedo, Graça Aranha, Coelho Neto, Humberto de Campos, Ferreira Gullar, Josué Montello e outros. A riquíssima literatura maranhense também produziu José Sarney, imortal da Academia Maranhense de Letras e da Academia Brasileira de Letras. Cometo uma impropriedade ao colocá-lo ao lado dos demais autores?
Bem... uma resenha publicada pelo jornalista João Villaverde no Estadão, sob o título "A redescoberta de um clássico improvável" (recomendo muito a leitura!), capturou a minha atenção para esse livro - O Norte das Águas, um livro de contos publicado em 1969, quando Sarney exercia o seu mandato como governador do Maranhão. Eu li e sou obrigado a fazer coro ao que disse Jorge Amado a respeito: era a revelação de um grande contista, de um grande ficcionista brasileiro.
Não é um livro perfeito. Identifico algumas falhas pontuais, alguns pequenos deslizes. Alguns exemplos: No conto "Brejal das Guajas", que trata da disputa política entre dois coronéis, um personagem secundário (Mário do banjo), sem maior importância para a história, é citado como partidário de um dos coronéis e, algumas páginas depois, como partidário do outro. Em outro conto, intitulado "Merícia do Riacho Bem-Querer", o escritor troca o nome de uma das personagens secundárias (Divina, filha do Coronel Cipriano, vira Dulcina). Além disso, fiquei com a impressão de que o penúltimo conto do livro - o conto sobre o beatinho - não é tão bem acabado como os demais.
Dito isso, esses deslizes não diminuem o livro. Achei o estilo da escrita de uma beleza! Conjugando marcas de oralidade, numa poderosa evocação da gente do interior do Maranhão, o texto de Sarney é tremendamente visual, tem cheiro e tem gosto. E as histórias são deliciosas. O conto sobre os Bonsdias, o conto sobre os Boasnoites e o conto sobre Merícia foram os de que mais gostei. Em alguns momentos, a narrativa espirituosa - tendente ao pitoresco - me arrancou risadas. Em outros, o tom trágico é muito bem trabalhado, não se furtando o texto a delinear o quadro das injustiças sociais a castigar os pobres, as mulheres e os negros do Maranhão. Aliás, é muito presente - em vários dos contos - a figura do coronel, como núcleo das relações sociais que tomam forma no interior do estado - o coronelismo, a política de clientela, o apadrinhamento, a sujeição, a dependência, o endividamento, por vezes o esbulho dos mais pobres.
A par disso tudo, devo dizer que a menção a São Longuinho, santo dos objetos perdidos e que, no livro, aparentemente votava um carinho especial pelos primos Bonsdias, me transportou para a minha infância.
Enfim, Sarney definitivamente ganhou a minha atenção para a sua obra ficcional. Já tenho um romance dele em mãos - "O Dono do Mar", que tantos elogios mereceu de Darcy Ribeiro. Será lido ao longo desse ano.