Livro de estreia da escritora britânica Rachel Seiffert, A Câmara Escura (The Dark Room, 2001), foi então indicado para o prestigiado Booker Prize. Suas três histórias podem ser lidas separadamente, mas estão interligadas, formam um todo. Algumas coisas que as unem: a II Guerra Mundial, especialmente o Holocausto, o fato de que os personagens principais são majoritariamente não os judeus, mas os perdedores alemães, e fotografias, de um modo geral.
Daí o título, como escreveu o crítico da Economist: “Numa câmara escura é revelada uma fotografia, uma imagem torna-se cada vez mais nítida. É isto que acontece ao longo das três histórias que constituem o excelente romance de Rachel Seiffert... uma tentativa bem sucedida e imaginativa que transpõe as verdades essenciais para uma memória viva.” Não é, portanto, um livro de contos, mas um romance, como bem identifica a revista inglesa.
A primeira história é sobre Helmut, jovem berlinense nascido em 1921 e então vivendo os anos da guerra. Por ter um defeito físico, não ter sido convocado para o exército, se torna uma pessoa melancólica, triste. Mas que aos poucos vai encontrando na profissão de fotógrafo sua sobrevivência e a forma de expressar seu exacerbado patriotismo. Acompanhamos a vida singular de Helmut para então, na última página, atingirmos o relato do que parece ser o momento mais sublime de sua existência...
A segunda história se passa em 1945 e é sobre Lore, a adolescente que tem de cuidar de seus quatro irmãos menores quando os pais nazistas são presos. Os trens estão parados e Lore tem de levá-los em uma longa caminhada até Hamburgo, para a casa da avó materna. Antes, destroem documentos, enterram insígnias e rasgam e queimam fotografias, conservando apenas algumas que não comprometem a família. A caminhada se transforma numa aventura perigosa e Lore e seus irmãos vão receber ajuda de quem menos esperavam. Mas no fundo essa é uma narrativa sobre perdas. De todo tipo de perdas...
Na última história, passada nos anos finais da década de 1990, Micha – ou Michael – é um professor que deseja descobrir se o avô, soldado da temida Waffen-SS (a tropa de elite nazista), já falecido e que ele idolatrava em criança, cometeu crimes de guerra quando esteve em território soviético. Isso se torna uma obsessão para ele. Escondido, retira do álbum da avó uma fotografia que leva consigo para a Bielorrússia em busca de sobreviventes que possam reconhecer o avô e contar-lhe a verdade sobre seu passado de soldado de Hitler. Encontra um, mas que não era exatamente o tipo de pessoa que ele esperava ter pela frente um dia...
Das três histórias, todas interessantes, a mais grave ou comovente ou dolorosa ou dramática é, sem dúvida, a da garota Lore. Tanto, que recebeu uma adaptação cinematográfica em 2012, com muitas indicações e prêmios ao redor do mundo todo. Embora com alguns trechos ligeiramente diferentes daqueles do livro e até mesmo incorporando pequenos detalhes das outras histórias, é um filme muito bom, que recomendo. Assim como recomendo mais ainda o livro de Rachel Seiffert.
Lido entre 20 e 26/12/2015. Minha nota: 4,3.