Ano passado saiu por aqui Meu Coração Está no Bolso (editora LunaParque), coletânea de poemas de Frank O’Hara (1926-1966). Alguns deles já eram bem conhecidos de um público específico através de traduções espalhadas na internet. Mas em Portugal já havia, desde 1995, esta edição bilíngue Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço (editora Assírio & Alvim), que também ajudou a popularizar um pouco mais o poeta americano, morto tragicamente aos quarenta anos.
Os dois livros são coletâneas, apresentam 25 poemas, mas não contêm as mesmas poesias, apenas algumas em comum. Curiosamente o volume português traz 26 poemas pois o tradutor luso, José Alberto Oliveira, que também fez a apresentação do poeta para os leitores de seu país, incluiu mais um, facilmente encontrável em inglês e português em diversos sites de poesia. Ele faz parte da edição inglesa da Penguin, de Collected Poems:
Autobiographia Literaria
Quando eu era criança
brincava sozinho
num canto do pátio
da escola.
Eu odiava bonecas
e odiava jogos, os animais
eram inamistosos e os pássaros
levantavam voo e fugiam.
Se alguém me procurava
escondia-me atrás de uma
arvore e gritava "Eu sou
um órfão."
E agora aqui estou, o
centro de toda a beleza!
escrevendo estes poemas!
Quem diria!
O título brasileiro da LunaParque, Meu Coração Está no Bolso, remete para o poema A Um Passo de Distância (A Step Away From Them), em que O’Hara fala de sua hora de almoço nova iorquina, sobre coisas e pessoas que se podia encontrar em Times Square, algumas através do pensamento, da imaginação, outras ao alcance da mão, a um passo de distância. Faz alusão à atriz italiana Giulietta Masina (mulher de Federico Fellini), ao pintor Jackson Pollock, e para terminar essa hora tão especial O’Hara escreve:
Um copo de suco de papaia
e volto para o trabalho. O meu coração está no
meu bolso, é Poemas de Pierre Réverdy.
Sua poesia falava de poetas, pintores, escritores, artistas. Era fascinado por cinema e mencionava atores conhecidos, como Errol Flynn, Elizabeth Taylor, Lana Turner e outros. Um desses poemas, muito famoso e sempre reproduzido em antologias, sobre a fabulosa cantora de jazz Billie Holiday, conhecida como Lady Day, fala do dia em que ela morreu (17 de julho de 1959), e seu título é um jogo de palavras: foi mantido em inglês também na versão portuguesa, The Day Lady Died.
Bem, se faltam mais livros em português com os poemas de Frank O’Hara, há muita coisa na internet acerca do poeta, dados biográficos e artísticos, outros poemas em inglês e traduzidos, conforme já foi mencionado. Vale a pena conhecer alguma coisa de sua biografia e poesia. Ela quase sempre celebra a vida cotidiana, coisas, lugares, pessoas, imagens, no entanto, alguns poemas não são assim tão facilmente digeríveis quanto um bom almoço em Nova York, Lisboa ou Sampa, seguido depois por um copo de mamão batido. É preciso consumi-los aos poucos, acostumar-se com seus sabores e sensações, prová-los mais de uma vez...
Lido em 23/11/2018. Minha avaliação: 3,5.